A PALAVRA NO SENTIDO PARA A VIDA

 

     Tenho-me interrogado sobre o acontecer da realidade e sobre a representação dos seus factos, e a diferença que noto está na inquietude que ambos produzem, pois uma pode produzir sentimentos de dor e de desencanto ou de engrandecimento e virtude, e outra produz quase sempre sentimentos de incerteza, quanto à possibilidade de a realidade ser assim; são os benefícios da arte, no conjugar das consumições da vida.
 
     Uma interrogação que desperta em mim, uma enorme vontade, de procurar perceber se existe relação perfeita entre acontecimento e representação, mesmo que esta, só possa ser por semelhança, perceber se existe de facto, uma relação coincidente, entre a realidade e aquilo que a representa, seja por interposição do homem, seja pelo registo da História, ou se porventura, apenas está a existir nos nossos dias, uma relação de ligação por comportamentos, que são moldados por uma rotina profundamente feroz e por interesses sociais, que em maioria, padronizam as nossas vontades e alienam os nossos sentimentos?!
 
     Pois, não podemos ignorar que nos nossos dias, está a assistir-se a uma perda progressiva do desejo e do gosto pela profundidade e pelo exame atento, do que se faz e do que se diz - julgo, que se está a pensar mais, para fazermos o que não devíamos, nem achamos nisso qualquer razoabilidade, do que para fazermos o que devemos e temos a certeza de estar corretos.
Com isto, dialoga-se pouco para o esclarecimento correto da verdade, e conversa-se muito sobre muitos assuntos, mas sem esclarecermos nenhum. 
 
     Criamos amizades, com muita facilidade, mas facilmente, nos esquecemos disso; dizemos que é a rotina da vida que nos tira o nosso tempo e, também a pressão diária, a que temos de nos sujeitar.
 
     Talvez, venham a ser manifestações, de um tipo de sobrevivência mais aparente do que real, a que aludimos com alguma facilidade, em razão deste procedimento, que haveremos de reconhecer, de que não tem qualquer predicado, por ser tão cheio de evasivas, e cheio de tantas simulações sobre a realidade, que acabamos por distorcer o sentido da amizade com esa sua coincidente representação, em meu entender, mais aparente do que real.
 
     Não poderei estar de acordo com esta maneira de proceder, nem muito menos, aceitar que exista alguma razão para assim procedermos.
 
     Os seres humanos, "alimentam-se" do diálogo, sério e profundo, do esforço pela procura de assim proceder, no respeito pela verdade, sendo, que em consequência, acabam por encontrar felicidade quando procedem nos hábitos sociais que criam satisfação e desejo de continuar neste sentido 
 
     Se o diálogo não soluciona completamente o problema, não hão de faltar momentos para o completarmos, mas conversar por conversar e para não se estar calado, isso não; não nos alimentamos verdadeiramente deste modo,
e termos de andar continuamente a perseguir aspetos que são muitas vezes fatores desagregados, que não encontrarão sentido senão numa relação mais profunda e mais exigente.
 
     O nosso comportamento não poderá traduzir apenas o movimento na relação, tem de traduzir também uma relação correta com o conteúdo; não poderemos desenvolver-nos bem se não criarmos sucessivas metas ou pontos de resolução de cada problema, que o diálogo acerca de um assunto, assim o há de exigir. 
 
     Também devemos conversar sempre, com a preocupação de estimular de retemperar, e não com a intenção de falar só para falar; a educação não será respeitada se assim acontecer.
 
     Por tudo isto, a conclusão primeira que tiro da minha análise é que, não sabendo se existe uma relação perfeita entre acontecimento e representação, uma relação semelhante entre a realidade e aquilo que a representa, verifico contudo, que não existe nos nossos dias, uma relação perfeita entre o falar e o sentir sobre o que se fala. E a segunda conclusão, que retiro também, desta análise simples e espontaneamente crítica, é de que a maioria das vezes, se falará por falar, quase sempre, num diálogo acompanhado de interesses económicos e motivações ideológicas, que aos poucos vão padronizando as nossas vontades, alienando os nossos sentimentos, sem produzirem história com memória, nem nos elevarem no conhecimento, pois tais momentos não passarão de razões banais, mais para nos “entreter” no tempo e no passar da vida, em vez de serem razões vitais, para alimento da palavra e a elevação maior do sentido da nossa existência.
 
Assim, não poderemos crescer na riqueza, muito menos, na riqueza espiritual: Jesus respondeu: "Está escrito: 'Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus'".
Mateus 4:
                                                                                                                                                                                         Macedo Teixeira