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Quando as Estrelas Acordam (8) / When the Stars Awake (8)

06-02-2018 13:03

Quando as Estrelas Acordam (8)

 

    Diz-se muitas vezes que a verdade é um valor que vale conforme o que significa e para ser aceite deve ser objec­tiva – os factos devem falar por si. Mas de que valor esta­remos nós a falar, quando falamos da verdade? Podemos falar da verdade do conhecimento, da verdade do tempo, da ver­dade do espaço; podemos exemplificar que é verdade que ontem o tempo esteve melhor do que hoje, que era falso que a Terra era o centro da nossa galáxia e estava imóvel e que o espaço era absoluto e imutável. Mas que verdade é esta de que estamos a falar, senão uma verdade finita e temporal? E se aquilo que é finito pode ser verdadeiro, não significa que não dependa da compreensão humana na identificação perfeita do seu referente. Logo, tenderá a ser rectificada porque está sujeita a limitações.

    Mas qual será então, a verdade que é eterna? Direi, num simples pensamento: o que é eternamente verdadeiro é a Verdade Infinita com Aquele que É o seu espírito. A ver­dade do que é finito não tem senão um valor limitado e, às vezes, de convenção; termina no seu limite de eficácia, alcança­-se pela nossa história, mas não é sempre avaliada do mesmo modo em todos os lugares e muda com a história dos tempos e, muitas vezes, pela vontade das pessoas.

    É o hábito para o infinito que nos faz caminhar na verdade e com ela; mesmo que sejamos sujeitos condicionados pela nossa história e participemos do que é finito e susceptível de mudar com o tempo, nós não nos acostumamos ao que parece e usamos sempre a inteligência para encaminharmos a vida para o ser, que é aquilo que é, e por ser neste modo participa da verdade eterna.

    Por isso, a nossa educação deverá ser para moldarmo-nos numa doação aos valores, mesmo aos valores finitos, como os materiais ou utilitários, que, não sendo sempre, são enquanto nos são necessários; e se a nossa doação for sobretudo aos valores infinitos, aos valores que não acabam (como no caso da alma ou do espírito, da verdade e da vida), o homem cami­nhará melhor na verdade e tudo fará para evitar a falsidade que é própria da finitude.

    Um ideal poderá ser um perfil, mas também uma refe­rência; um ideal será uma matriz do pensamento, pelo qual cada um tende a procurar um caminho para chegar com a vida e com a existência a um lugar onde julga aportar com segu­rança e encontrar algumas certezas para a sua felicidade.

    Ao usarmos os elementos da natureza e ao sentirmos que uma parte nos fascina e outra nos atemoriza, que uma parte nos afecta a sensibilidade de modo positivo e outra nos afecta de modo negativo, somos induzidos para ver na razão nega­tiva os perigos que ocorrem na nossa vida. No entanto, destes não se poderá concluir que o horror seja de ordem natural nem que a nossa sensibilidade seja perfeita em todas as quali­dades. Se o horror fosse essência, só o experimentaríamos em abstracto, o que não acontece de todo, já que se pode constatar nas várias tragédias humanas que o horror é um efeito nas consequências cujas causas são maioritariamente de natureza humana. Se o horror existe é porque temos medo do que nos possa acontecer por sermos frágeis e humanizarmos demais os perigos. A Natureza não tem uma essência cruel e vingativa, nós é que cada vez a profanamos mais e lhe retiramos factores de regeneração e defesa, enfraquecendo o poder da harmonia entre o equilíbrio das formas naturais e o poder das suas forças. Somos excessivamente aventureiros e ousamos desafiar todos os limites sem ter em conta a sua necessidade para o nosso equilíbrio e melhor sobrevivência. Se algo de trágico nos acon­tece por acção natural, é porque somos parte da natureza e a ela estamos sujeitos, mas isso é excepção à regra da ordem, e quando acontece algo trágico por força natural foi porque alguma coisa a provocou no aleatório. O mesmo não se poderá dizer em relação à acção do homem quando este se expõe aos perigos e não considera os limites das suas condições ao desa­fiar o poder do Cosmos. Nestas condições, haverá grandes pro­babilidades para acontecimentos trágicos, mas a culpa não é da natureza, porque ela tem origem no homem e na vontade de este praticar acções de consequências incontroláveis.

    Numa idade singular, as estrelas acordam para não estarmos mais sob a força do efeito das condições que nos inclinam para as pressões sociais e para a pressão que cada um já exerce sobre si ao longo da sua caminhada com vista a iden­tificar-se com as referências da sua identidade social. A partir desta idade, as estrelas que foram anteriormente os sensores da nossa vida são agora as luzes de que o espírito se serve para que a alma não fique mais às cegas nem prisioneira no homem quando a este lhe falta a razão.

    Durante muito tempo as estrelas dormem dentro de nós sem darmos conta disso; neste período da nossa vida, servem para nos protegerem e para nos tornarem mais iluminados na noite e mais fortes no dia; servem os desígnios da força divina, da coragem e da beleza; servem, afinal de contas, o nosso pró­prio sonho, para o começarmos a experimentar nos actos que a beleza gerará e transformará depois. Elas acordam, provavel­mente, quando ainda somos bastante novos e, sem que nós sai­bamos, começam a ajudar a nossa alma a apear-se em todas as animações do corpo, dando-lhe força e incitando-a à animação e ao cuidado para vivermos através dos seus princípios e da essência da nossa geração. Nesta altura, estaremos a viver entre a Segunda idade e o despertar para a Terceira; estaremos pro­vavelmente numa fase da vida em que pensamos que os seres que dormem e acordam são só os seres vivos que vemos mani­festarem-se nos estados e formas de vida sensível. Afinal, só bastante tempo depois de termos nascido é que sabemos que, desde pequeninos, as estrelas estão dentro de nós, dormindo num sono celestial e girando num movimento intangível, para viverem no lugar onde habita a nossa vida e poderem acordar mais tarde para ajudarem a alma a guiar a nossa existência na sua realização e ainda proporcionarem a geração e criação dos nossos descendentes.

    Nesta idade singular, somos seres em plenitude que cami­nhamos na direcção do infinito, no caminho da luz das estrelas e no caminho da vida que já é sonho e nos vai mostrando algumas partes do seu mistério. Pouco a pouco, vamos come­çando a ver e a sentir de uma forma diferente; vamos come­çando a sentir numa dimensão que excede os sentidos e nos coloca no entendimento e na intuição lúcida da nossa vida estelar. As nossas sensações são agora muito mais dóceis e sen­tidas em quietude no tempo de duração vivido em cada lapso do giro infinito. É como se caminhássemos por uma linha e os pontos de referência mudassem conforme a luz que lhe transmitíssemos, que, sendo espírito, nos acomoda aos vários efeitos e nos torna próximos de cada ser com que nos vamos relacionando no Universo. Este sentimento obtém-se com a mesma leveza com que somos tocados por essências e fra­grâncias, que, vindo de formas puras duma qualquer direcção, nos estabiliza e serena na equidistância de Deus.

 

Macedo Teixeira, Quando as Estrelas Acordam, Sítio do Livro, Lisboa, Julho de 2014, pp. 28 a 32.

 

 

When the Stars Awake (8)

 

We say many times that truth is a value that is of value according to what means and to be accepted, it must be objective – facts must speak for themselves. But what value are we talking about, when we talk about truth? We may speak of the truth of knowledge, the truth of time, the truth of space; we can exemplify that it is true that yesterday the weather was better than today, that was false that the Earth was the center of our galaxy and was immobile and that space was absolute and immutable. But what truth is this that we are talking about, except a finite and temporal truth? And if that which is finite may be true, it does not mean that it does not depend on human comprehension in the perfect identification of its referent. Hence, it will tend to be rectified, because it is subject to limitations.

But what is, then, the truth that is eternal? I will say, in a simple thought: what is eternally true is the Infinite Truth with That who is its spirit. The truth of what is finite does not have anything but a limited value and, sometimes, of convention; it ends on its efficacy limit, it is reached through our history, but it is not always evaluated in the same way in all places and changes with the history of times and, many times, by peoples’ will.

It is the habit to the infinite that makes us walk in the truth and with it; even if we are conditioned subjects by our history and participate in what is finite and susceptible of changing with time, we do not accustom ourselves to what seems and we always use our intelligence to guide life to the being, which is what it is, and because it is this way, it participates in eternal life.

Therefore, our education should be to mold ourselves in a donation to values, even to the finite values, like the material or utilitarian ones, which, not being all the time, they are so while they are necessary to us; and if our donation is mainly to the infinite values, to the values that do not end (like in the case of the soul or the spirit, of the truth and the life), man will walk better in truth and he will make everything to avoid the falsehood that is typical of finitude.

An ideal may be a profile, but also a reference; an ideal will be a matrix of thought, by which each one tends to seek a way to arrive with life and with existence to a place where one thinks to dock with safety and find some certainties to their happiness.

By using the elements of nature and by feeling that a part fascinates us and other frightens us, that a part affects our sensitivity in a positive way and other affects us in a negative way, we are induced to see in the negative reason the dangers that occur in our life. Nevertheless, from these we cannot conclude that horror is of natural order or that our sensitivity is perfect in all qualities.  If horror was essence, we would only experience it in abstract, which does not happen at all, since we can notice in the several human tragedies that horror is an effect on the consequences whose causes are mainly of human nature. If horror exists, it is because we are afraid of what may happen to us because we are fragile and humanize too much the dangers. Nature does not have a cruel and revengeful essence; it is us who profane it even more and take from it factors of regeneration and defense, weakening the power of harmony between the balance of the natural forms and the power of its forces. We are excessively adventurers and we dare to challenge all limits without taking into account its need to our equilibrium and better survival. If something tragic happens to us by natural action, it is because we are part of nature and we are subject to it, but that is the exception to the rule of order, and when something tragic happens by natural force, it was because something caused it in the randomness. We cannot say the same regarding the action of man when he exposes himself to dangers and does not consider the limits of his conditions by challenging the power of the Cosmos. Under these conditions, there will be great probabilities of tragic happenings, but the fault is not of nature, because it has origin in man and in the will of him to practice actions of uncontrollable consequences.

At a singular age, the stars awake so that we no longer be under the force of the effect of the conditions that incline us to the social pressures and to the pressure each one already exerts upon oneself throughout their walk with a view to identify oneself with the references of their social identity. From this age, the stars that were previously the sensors of our life are now the lights the spirit makes use of so that the soul does neither stay anymore in the dark nor prisoner in man when lacks him reason.

For very long, the stars sleep within us without us noticing that; within this period of our life, they serve to protect us and to make us more enlightened in the night and stronger in the day; they serve the purposes of the divine force, of courage and beauty; they serve, after all, our own dream, so that we begin to experience it in the acts that beauty will generate and will transform later. They awake, probably, when we are still very young and, without us knowing, they begin to help our soul to rely on every animation of the body, giving it strength and inciting it to animation and to the care to live through its principles and through the essence of our generation. By this time, we will be living between the Second age and the awakening to the Third one; we will be probably in a phase of life in which we think that the beings that sleep and awake are only the living beings that we see manifesting themselves in the states and forms of sensitive life. After all, it is only much time after we are born that we know, since we were very little ones, that the stars are within us, sleeping in a celestial sleep and rotating in an intangible movement, to live in the place where it inhabits our life and to be able to awake later to help the soul guide our existence in its realization and even provide the generation and creation of our descendants.

At this singular age, we are beings in plenitude who walk towards the infinite, in the path of the light of the stars and in the way of life that is already dream and is going to show us some parts of its mystery. Little by little, we begin to see and feel in a different way; we begin to feel in a dimension that exceeds the senses and puts us in the understanding and in the lucid intuition of our stellar life. Our sensations are now much more docile and felt in quietness in the duration time lived within each lapse of the infinite turn. It is as if we walked by a line and the reference points changed according to the light we transmitted to it, which, being spirit, accommodates us to the several effects and makes us closer to each being we mix with in the Universe. This feeling is obtained with the same lightness as that by which essences and fragrances touch us, which, coming from pure forms from any direction, stabilizes us and calm us down in the equidistance of God.

 

Macedo Teixeira, When the Stars Awake, Sítio do Livro, Lisbon, July 2014, pages 28 a 32.

 

 

Quando as Estrelas Acordam (7) / When the Stars Awake (7)

12-01-2018 13:20

Quando as Estrelas Acordam (7)

 

    O fogo é uma porção de gás na qual se produzem reac­ções químicas com produção de calor e de luz; acompanha fre­quentemente os fenómenos de combustão; é um exemplo de plasma.[    3    ]

    O conhecimento do fogo por parte do homem deve ser tão antigo como ele próprio.[4] Podia ser observado nos vul­cões que houvesse na região ou também nos incêndios das flo­restas, ocasionados pelos raios, pela fricção dos ramos secos ou pela ignição espontânea. De todos os seres existentes na Terra nenhum animal possui essa habilidade. Não se sabe como conseguiu dominá-lo; parece, no entanto, haver sido num momento bastante prematuro da História. É provável que o homem de Pequim já se servisse desse elemento há 350.000 anos.

    Para além dos seus próprios músculos, o fogo foi a pri­meira fonte de energia de que o homem dispôs. Com ele dava luz e calor à sua gruta, o que permitiu que vivesse na Europa e Ásia durante o último período glacial. A princípio, o fogo infundia temor, pois os incêndios das florestas e pradarias afugentavam as presas do caçador e ameaçavam a sua casa. Porém, uma vez aprendida a arte de “tomá-lo emprestado” à natureza, converteu-se num poder benfeitor, já que servia para afugentar o medo; era tido, portanto, como algo sagrado.

    Quase todas as descrições mitológicas consideram o fogo como um roubo feito aos deuses: o mito grego de Prometeu é a lenda mais conhecida sobre como o homem se apoderou do fogo. Prometeu roubou-o aos deuses e como castigo foi acor­rentado a uma rocha e atormentado por um abutre que lhe foi devorando o fígado.

    O fogo tornou-se assim num símbolo sagrado, que ardia sobre o altar das oferendas para aplacar a ira dos deuses. As chamas elevavam-se como uma súplica de expiação. Na Igreja Cristã, a chama das velas ilumina os altares das igrejas do mundo inteiro. No primeiro dia dos jogos olímpicos da Antiguidade, acendia-se uma chama em honra de Zeus. Em 1936, renovou-se essa tradição: o facho é transladado do templo de Zeus em Olímpia até ao lugar onde se realizam as competições.

    Para que haja combustão com chama são necessários três elementos – material combustível, oxigénio e calor adequado. Quando se coloca de boca para baixo um copo sobre uma vela acesa, quando o oxigénio nele contido é consumido, a chama apaga-se.

    A combustão é uma oxidação. Quando, por exemplo, o carvão é queimado, cada átomo de carbono combina-se com dois de oxigénio. O carvão, então, oxida-se, convertendo-se em bióxido de carbono; para isso tem que consumir oxigénio.

    O fogo é sinal visível de uma reacção química: a subs­tância que arde combina-se com o oxigénio do ar. Só os gases podem arder com chama. Portanto, para que um combustível possa arder com chama, deve ser antes gaseificado.

    Uma substância somente começa a arder quando aquecida a uma determinada temperatura, chamada temperatura de ignição. Na combustão produz-se o calor que mantém a tem­peratura acima do ponto da ignição, de maneira que a reacção possa continuar. Se a temperatura se torna suficientemente alta para que a substância comece a gaseificar-se, aparece, então, o fenómeno luminoso, o fogo. Toda a combustão no ar – com chama ou sem ela – supõe a combinação de uma substância com o oxigénio. A reacção química assim produzida é uma oxidação e as novas substâncias que se formam chamam-se óxidos. Todos os combustíveis comuns contêm obrigatoria­mente carbono. A hulha e o coque são carbono mais ou menos puro; o gás de cidade, o butano, a gasolina, o petróleo e o óleo pesado são compostos químicos de carbono e hidrogénio (hidrocarbonetos).

    Numa combustão completa – em que todos os compo­nentes combustíveis desaparecem –, a partir do carbono forma-se bióxido de carbono (anidrido carbónico); a partir dos hidrocarbonetos forma-se bióxido de carbono e água (que é óxido de hidrogénio). Se a quantidade de oxigénio é insufi­ciente para uma combustão completa, forma-se óxido de car­bono, que é um gás venenoso. O lume de uma lareira, cuja tiragem esteja fechada de forma a que entre pouco oxigénio, pode causar perigosas intoxicações por óxido de carbono. Se a combustão do carvão de pedra e de madeira é muito incom­pleta, forma-se alcatrão. A maioria dos combustíveis contém substâncias minerais que não ardem, subsistindo sob a forma de cinza.

    A cor de uma chama gasosa pura depende da substância que se queima. A chama dos hidrocarbonetos é azul, se há oxi­génio suficiente.

    A coloração é praticamente independente da tempera­tura da chama. Se se substituir o ar por oxigénio puro (por exemplo, num maçarico), a chama vai aquecendo mais e brilha com maior intensidade, porém continua a ser azul. Quando se aquece um corpo sólido, este adopta diferentes cores, segundo a temperatura. As partículas sólidas incandescentes do com­bustível são as que dão cor à chama: do vermelho-escuro (entre 600 e 800 ºC), laranja e amarelo (entre 1100 – 1200 ºC), até ao branco deslumbrante, quando a temperatura ultrapassa os 1500 ºC.

    Do que é dito, não se pode deixar de constatar, apesar de tudo, qual a importância que tem este elemento para a nossa sobrevivência, mas também já se disse que o hábito e o uso fazem valer os valores e permitem identificar a sua origem no sentido da sua função. E se o fogo em certas circunstâncias causa aflição e sofrimento, elas são o produto da nossa acção cultural, que nem sempre tem em conta os efeitos da má apli­cação dos factores da cultura nem tem em conta as leis naturais que são incondicionadas.

    Por outro lado, já vimos que podemos usar as pala­vras para prender a atenção, convencer os outros sobre os nossos desejos, impor de uma forma culta aquilo que que­remos que pensem e gostem, mas perante as leis da natureza não podemos proceder do mesmo modo. Se não prestarmos atenção nem cumprirmos objectivamente com a sua ordem, as consequências negativas são imediatas. Serão atitudes como estas que nos levam a pensar que não somos livres, mas, pen­sando melhor, nós seremos sempre livres se cultivarmos o hábito para a liberdade e demonstrarmos nos usos, seja da natureza ou do homem, que a nossa liberdade está nas pró­prias leis, e é livre quem delas souber fazer uso.

    É, por isso, altura de nos lembrarmos de novo como é importante o hábito para o infinito, pois é ele que conduz à dimensão do espírito, nos aproxima da fonte da verdade e nos faz ver o que somos e que liberdade temos.

 

Macedo Teixeira, Quando as Estrelas Acordam, Sítio do Livro, Lisboa, Julho de 2014, pp. 24 a 28.

 


[    3    ] Dicionário Enciclopédico Koogan-Larousse. Selecções do Reader’s Digest, Lisboa, Temas n.º 3: Física e Química, página 189.

[ 4 ] Enciclopédia Combi Visual (Grolier), Volume N.º 4, Temática “O Fogo”, páginas 1 a 5.

 

 

When the Stars Awake (7)

 

Fire is a portion of gas in which chemical reactions are produced with production of heat and light; it often accompanies combustion phenomena; it is an example of plasma.[3]

The knowledge of fire by man should be as ancient as himself.[4] It could be observed in volcanos that were in the region or also on forests’ fires, occasioned by thunderbolts, by the friction of dry branches or by spontaneous ignition. Of all the beings existent on Earth, no animal possesses that ability. No one knows how one managed to tame it; it seems, however, to have been in a very premature moment of history. It is probable that the man of Beijing already made use of that element 350,000 years ago.

Besides his own muscles, fire was the first source of energy man disposed of. With it, he gave light and heat to his cave, which allowed him to live in Europe and Asia during the last glacial period. At first, fire infused fear, since forests and prairies’ fires frightened away the preys from the hunter and menaced his home. However, once learned the art of “borrowing it” from nature, it turned to a beneficent power, now that it served to chase away the fear; it was considered, therefore, as something sacred.

Almost every mythological description consider fire as a theft made to the gods: the Greek myth of Prometheus is the most known legend about how man took hold of fire. Prometheus stole it from the gods, and as a punishment he was chained to a rock and tormented by a vulture that was devouring his liver.

Fire has become thus a sacred symbol, which burned over the altar of offerings to placate the anger of the gods. The flames rose as a supplication of expiation. In the Christian Church, the flame of the candles illuminates the altars of churches all around the world. On the first day of the Olympic games of Antiquity, a flame was kindled in honor to Zeus. In 1936, this tradition was renewed: the torch is transferred from the temple of Zeus in Olympia to the place where the competitions take place.

To exist combustion with flame, it is necessary three elements — combustible material, oxygen and adequate heat. When one puts a glass with the opening upside down over a lit candle, when the oxygen is consumed, the flame goes out.

Combustion is an oxidation. When, for example, coal is burned, each carbon atom combines itself with two of oxygen. Coal, then, oxidates, converting itself into carbon dioxide; for that, it has to consume oxygen.

Fire is a visible sign of a chemical reaction: the substance that burns combines itself with the air oxygen. Only gases can burn with flame. So, for a combustible to be able to burn with flame, if must be gasified before.

A substance only begins to burn when heated to a determined temperature, which is called ignition temperature. In combustion it is produced the heat that maintains temperature above the ignition point, so as to the reaction may continue. In temperature becomes high enough so that the substance starts to gasify itself, then appears the luminous phenomenon, fire. All combustions in the air — with flame or without it — presuppose the combination of a substance with oxygen. The chemical reaction thus produced is an oxidation, and the new substances that are formed are called oxides. All the common combustibles contain necessarily carbon. Coal and coke are carbon more or less pure; city gas, butane, gasoline, petroleum and heavy oil are chemical compounds of carbon and hydrogen (hydrocarbons).

In a full combustion – in which all combustible components disappear –, from carbon is formed carbon dioxide (carbonic anhydride); from hydrocarbons are formed carbon dioxide and water (which is hydrogen oxide). If the quantity of oxygen is insufficient to a full combustion, carbon oxide is formed, which is a poisonous gas. The fire of a fireplace, of which the draft is closed so that little oxygen enters, may cause dangerous intoxications by carbon oxide. If hard coal and wood coal is very incomplete, tar is formed. Most of combustibles contain mineral substances that do not burn, subsisting in the form of ashes.

The color of pure gaseous flame depends on the substance we burn. The flame of hydrocarbons is blue, if there is enough oxygen.

The coloration is practically independent of the temperature of the flame. If we substitute air by pure oxygen (for example, in a blowtorch), the flame is going to heat more and shines with greater intensity; however, it continues to be blue. When we heat a solid body, it adopts different colors, according to the temperature. Solid incandescent particles of the combustible are those that give color to the flame: from dark-red (between 600°C and 800°C [1110°F and 1470°F]), orange and yellow (between 1100°C and 1200°C [2010°F and 2190°F]), up to dazzling white, when the temperature goes beyond 1500°C [2730°F].

From what is said, we cannot stop noticing, in spite of everything, what is the importance that has this element to our survival, but also was already said that the habit and the custom make worth the values and allow to identify their origin in the sense of their function. And if fire, in certain circumstances, causes affliction and suffering, they are the product of our cultural action, which not always takes into account the effects of the bad application of the factors of culture nor takes into account the natural laws that are unconditioned.

On the other hand, we have already seen that we may use words to rivet attention, to convince the others of our wishes, to impose in a cult way that which we want them to think and like, but before the laws of nature we cannot proceed in the same mode. If we do neither pay attention nor comply with its order, the negative consequences will be immediate. It will be attitudes like these that lead us to think, but, thinking better, we will be always free if we cultivate the habit to liberty and demonstrate in the customs, be they of nature, be they of man, that our liberty is in the very laws, and is free the one who knows how to make use of them.

It is, therefore, time for us to remember again how it is important the habit to the infinite, since it is it that leads to the dimension of spirit, that bring us closer to the source of truth and make us see what we are and what freedom we have.

 

Macedo Teixeira, When the Stars Awake, Sítio do Livro, Lisbon, July 2014, pages 24 to 28.

 


[3] Koogan-Larousse Encyclopedic Dictionary. Selections from Reader’s Digest, Lisbon, Themes N.º 3: Physics and Chemistry, page 189.

[4] Visual Encyclopedia Combi (Grolier), Volume N.º 4, Theme “Fire”, pages 1 to 5.

 

 

 

Reflexão e agradecimento / Reflection and gratefulness

20-12-2017 21:40

Reflexão e agradecimento

 

    Desde há muito tempo que venho sentindo e mantendo a convicção de que um dia poderei vir a adquirir definitivamente a capacidade espiritual necessária para a compreensão de grande parte do que vou desejando de mais importante para a minha vida, isto é, vir um dia a conseguir obter o saber verdadeiro sobre a essência daquilo que realmente é (sem qualquer dúvida), para então ser capaz de interpretar com a nitidez o que vou sentindo no meu interior, sobre certos aspetos da transcendência da minha vida. Desejava poder deixar de senti-los como ainda os sinto, quase sempre de um modo intermitente e não constante e permanente, para então, a partir daí, ser capaz de os poder sentir com constância e clareza e de os poder avaliar com perfeição.

    A propósito e para prova do efeito da reflexão desejada, começa desde já por ressaltar em mim uma dessas preocupações, uma das tais que há muito me interpelam e que consiste em poder conhecer e sentir verdadeiramente o valor espiritual que terá a expressão: “De graça recebestes, de graça dai.” (Mateus 10:8.)

    É natural que no absurdo me penitencie nesta limitação, contudo, não deixarei de dizer que ao longo da minha vida tenho procurado sempre ser mais do que aquele aluno que se limita a ficar pela normalidade e não luta para ir mais além na escuta e compreensão de tal mensagem. Pois com a consciência inquieta e num esforço permanente, tento libertar-me de mim mesmo, esforço-me por fugir da assunção de culpa, por abstinência ou renúncia na procura. Todos os dias vou aspirando com grande fé a que me torne sempre e em todas as ocasiões absolutamente no “Eu sou” e no “eu pareço”, e não no contrário: “Eu pareço, mas eu não sou!”

    Nesta expectativa, continuo com grande insistência a evocar diariamente a sabedoria e a trabalhar pensando e escrevendo com afinco e total desprendimento de mim mesmo, para poder vir a melhorar tanto quanto possível em tal dependência, ou seja, continuando a fazer um grande esforço para compreender esta inquietação e aplicar com consciência plena e melhor a expressão: “De graça recebestes, de graça dai.” (Mateus 10:8.)

    Porém, apesar de todas estas preocupações, decidi nesta ocasião e neste Período natalício, que é tão sublime para a Humanidade, colocar de lado a reflexão sobre a minha inquietação da questão evangélica referida.

    Assim, proponho antes na oportunidade agradecer a todos vós do fundo do meu coração, pois são já tantos aqueles e aquelas a quem devo desde há muito um agradecimento sentido e de elevado reconhecimento, pela dedicação com que me vão gratificando lendo o que vou escrevendo e ouvindo o que vou dizendo, fazendo-o sempre com a serenidade e a paciência necessárias, sinal que em silêncio me faz meditar e agradecer, tornando-me frágil em certas ocasiões, pois sou humano e isso, por muito que me esforce, sempre me comoverá, mas também me compensará e me ajudará a continuar a caminhar por aí!...

    Peço desculpa por tender a manter-me num certo anonimato e não responder de modo particular à amizade que me dedicam; contudo, ainda que ficando em silêncio, desejo que vejam neste meu gesto um sentimento universal de gratidão, pois sempre que posso, não me esqueço de ver nenhum pormenor ou comentário que façam, e acreditem que fico às vezes a desejar ser menos impessoal, daí que apelo nas minhas preces para que me torne capaz de fazer com que todos sintam da mesma maneira tudo o que eu sinto de satisfação e também que eu seja capaz de dizer em espírito tudo o que me vai na alma, e que o possa fazer apenas numa folha de papel em branco, uma folha onde pudessem ler e sentir em cada gesto de modo totalmente puro o tal sentimento “De graça recebestes, de graça dai”.

    Porém, nesses vossos gestos de amor e caridade com os quais me vão gratificando e engrandecendo, ficarei eternamente reconhecido, e por isso com a mais profunda gratidão deixar-me-ei libertar no infinito, permanecendo na confiança de saber que em nenhuma situação estaremos sós, continuando na esperança de corresponder com a mesma adoração e com o mesmo sentido para cumprir no Amor por Aquele que É tudo em todos, mesmo que só comunique convosco deste modo e de vez em quando, pedindo desde já que Ele faça por mim o que eu não for capaz, sobretudo para o melhor da Humanidade!

 

FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!

 

 

 

Reflection and gratefulness

 

Since long ago I have been feeling and keeping the conviction that one day I may acquire definitely the necessary spiritual capacity to the comprehension of great part of what I am wishing of most important to my life, that is, to manage one day to obtain the true knowledge about the essence of what really is (without any doubt), so that then I am capable of interpreting with clearness what I am feeling in my inside, about certain aspects of the transcendence of my life. I would like to stop feeling them like I still feel them, almost always in an intermittent way, but not constantly nor permanently, to then, from there, be capable of feeling them with constancy and clarity and of evaluating them with perfection.

Apropos and for evidence of the effect of the desired reflection, it starts right now to stand out in me one of those concerns, one of those that since long ago interpellate me and that consist in being able to know and feel truly the spiritual value that will have the expression: “Freely you have received; freely give.” (Matthew 10:8.)

It is natural that in the absurd I do penance in this limitation; however, I will not omit to say that throughout my life I have been always seeking to be more than that pupil who limits himself to stay by the normalcy and does not fight to go further in the listening and comprehension of such message. Since, with the conscience unquiet and in a permanent effort, I try to free me of myself, I strive to run away from the assumption of guilt, by abstinence or renounce in the search. Every day I aspire with great faith to become always and on all occasions absolutely the “I am” and the “I seem”, but not the otherwise: “I seem, but I am not!”

In this expectation, I continue with great insistency to evoke daily the wisdom and to work thinking and writing doggedly and with full generosity, so that I may better myself as far as possible in such dependence, that is, continuing to make a great effort to understand this inquietude and to apply with full conscience and better the expression: “Freely you have received; freely give.” (Matthew 10:8.)

However, despite all these concerns, I have decided on this occasion and within this Cristmassy Period, which is so sublime to Humanity, to put aside the reflection about my inquietude of the referred evangelical question.

Thus, I propose rather in the opportunity to thank you all from the bottom of my heart, since are already so many those to whom I owe for so long a heartfelt thankfulness and of elevated acknowledgement, for the dedication with which you are gratifying me reading what I am writing and listening to what I am saying, doing it always with the necessary serenity and patience, a sign that in silence makes me meditate and thank, turning myself fragile on certain occasion, for I am human and that, no matter how much I strive, will always touch me, but will also compensate me and will help me to continue to walk around!...

I apologize for tending to keep myself within a certain anonymity and to not respond in a particular way to the friendship you dedicate me; however, even though remaining in silence, I wish that you see on this gesture a universal feeling of gratitude, since everytime I can, I do not forget to see any detail or comment you make, and believe me that sometimes I get to wish to be less impersonal, hence I appeal in my prayers to become myself capable of making everyone feel the same way everything I feel of satisfaction and also may I be able to say in spirit all that goes in my soul, and may I do it only in a blank sheet of paper, a sheet where someone could read and feel in each gesture, in a fully pure manner, that feeling Freely you have received; freely give”.

However, with these love and charity gestures of yours, with which you are gratifying me and dignifying me, I will be eternally grateful, and therefore, with the most profound gratefulness I will let myself free in the infinite, remaining in the trust of knowing that in no situation we will be lonely, continuing in the hope of corresponding with the same adoration and with the same sense to fulfill in the Love for that Who Is everything in everyone, even if I only communicate with you in this way and from time to time, asking right away that He does for me what I cannot, especially for the best of Mankind!

 

MERRY CHRISTMAS AND A HAPPY NEW YEAR!

 

                              

 

 

Quando as Estrelas Acordam (6) / When the Stars Awake (6)

15-12-2017 17:08

Quando as Estrelas Acordam (6)

Macedo Teixeira

    Este hábito para o infinito está latente em nós, seja qual for a matriz da nossa origem e não serão os usos e costumes que o impedirão de revelar-se plenamente, a não ser que na nossa educação não haja o cuidado de nos exercitar a desco­brir e relacionar de modo interactivo as potencialidades da ordem natural, pois neste caso, o uso que faremos deste hábito colocar-nos-á, apenas, na finitude do que é vulgar e não nos proporcionará uma visão para além do concreto. A urbani­dade trouxe a ansiedade e a distância pelos campos, porque os fomos deixando ao longo da nossa história para viver melhor nas cidades ou então, deles só temos imagens, pois conhe­cemos muito pouco onde são cultivados os alimentos que comemos. A urbanidade não trouxe a essência no seu estado puro, para tornar a existência no que ela tem de mais humano e, em consequência, mais afectivo, emocional e próximo. A essência terá de ser plena em toda a Terra e os nossos usos, de tão urbanizados que estão, levam-nos a vê-la e a senti-la, não como ela é, mas de acordo com a vida social que vivemos no dia-a-dia. O hábito de comunicar leva-nos à fala, mas o sen­tido que procuramos pode não exceder o uso das palavras, quando estas apenas impressionam e prendem, de acordo com a nossa vantagem e, em qualquer lapso de tempo, em que comunicamos. O hábito para o infinito torna-se fundamental em todas as situações, mas destacando-se, neste caso, pelo uso das palavras mais emocionais e afectivas que apelam para os sentimentos do coração e da subjectividade pessoal; esta será a lógica principal da proximidade dos seres humanos para a abertura do Eu ao Outro. Será, também, o melhor modo de interacção no momento inicial da comunicação, embora, logo que completamente conscientes e relacionados no assunto, devamos procurar seleccionar os sentidos, para que o uso das palavras reflicta as formas racionais e elevem o nosso pen­samento ao seu estado natural e às situações a viver na mais valiosa impessoalidade. A comunicação deverá fazer-se para caminhar ao encontro das soluções necessárias à vida e para descobrir como remediar o que falta ou aumentar o que já temos por não ser suficiente.

   A busca das decisões que temos que tomar na caminhada para o encontro da nossa vida impele-nos a viver através do espírito, abre-se para a razão e entendimento e pode tornar-se acto puro na subida à intuição. É uma busca que desejamos, porque temos sede da união desta força, que ganha sentido, logo que o nosso entendimento atinge a compreensão de que somos os seres mais elementares dos sonhos que queremos rea­lizar. Mas esta abertura do pensamento não a atingimos sem a nossa opção voluntária para esta caminhada e sem a ajuda do Guia, que nos orienta e não nos deixa perder, quando come­çamos a procurar as marcas dos passos que já demos até este novo momento da nossa existência. Quando começamos voluntariamente a compreender que só estaremos próximos desse encontro e da sua plenitude, quando dos passos que dermos com o corpo, passarmos pela ordem biológica, atin­girmos a ordem psicológica e avançarmos até à dimensão espi­ritual, na qual passaremos a viver em comunhão com o espírito Daquele que É o Caminho, a Verdade e a Vida. Nessa altura, nós estaremos próximos, ou já no seu caminho, pois Ele ajudar­-nos-á na abertura da nossa vida espiritual. Sem esta convicção e possibilidade, não procuraríamos nem correríamos alguns perigos psicológicos que esta mudança de ordem implica em determinados momentos da vida em que não somos ainda seres muito estáveis. Nesta nova ordem e nesta outra cami­nhada estaremos já na proximidade espiritual, mas a sede pela força, que vem agora do espírito, ainda só será saciada por pouco tempo e só em certas ocasiões. Por este motivo, volta­remos ao mesmo estado de ansiedade e de grande tensão, enquanto esta comunhão não se fizer sempre com a sua acção e presença; enquanto não alcançarmos Aquele, que é a fonte donde brota a vida que nos fará sentir plenamente e em todo o tempo que vivermos. E se o guia nos orienta e não nos deixa perder, isso significa que somos voluntários no caminhar até si e que é esta caminhada que nos reunirá na conjugação dos sentidos e da razão e nos mostrará a espiritualidade noutras singularidades da imagem de expressão infinita que glorifica o nosso corpo e a nossa alma. Será também nesta caminhada que nos abrigamos no reflexo do sonho que se alcançará, quando nos encontrarmos com Aquele, que nos ensinará a beber pela nossa própria mão, da fonte donde brota o espí­rito, que liga o nosso ser noutra dimensão da vida e faz com que o nosso amor seja a mais profunda expressão desta ligação.

   Quando as estrelas acordam estamos integrados em todas as partes e formamos um todo indivisível e imutável. Porém, todo aquele que atinge esta plenitude já não poderá reger-se só pelas faculdades que lhe permitem o sentimento e o conhe­cimento; terá de acreditar pela fé que viver plenamente é viver a realidade, mas também o sonho, e estes elementos experi­mentam-se pelo que se vê e se faz, com uso na acção das facul­dades e, em especial, pela acção do espírito que recebe o poder da sua própria fonte. Não é que não se deva considerar impor­tante todo o ideal, ele tem a ver com o nosso querer e, sem ele, não teríamos referências, perder-nos-íamos no nosso espaço e no nosso tempo. Mas se a vida é expressão do espírito e da sua força, por que não viver melhor através destas realidades, sem nos fixarmos em qualquer poder transitório, vivendo sós e só aparentemente bem? E por que não caminhar com todas as nossas forças até ao Senhor da Fonte, para nos ligarmos a Ele e beber do espírito que nos santifica a vida e faz com que não voltemos a ter a tal sede, que nos torna tão ansiosos e sempre tão confusos? Caminhar, afinal, com um ideal espiritual, que a idealidade no pensamento será a matriz original e origi­nária da vontade de nos tornarmos na imagem e semelhança daquele que sonhamos ser. Quando se diz que a Terra tem mis­térios e riquezas incontáveis, referimo-nos quase sempre ao que nos deslumbra e agrada ou ao que é imediatamente neces­sário à nossa sobrevivência, como por exemplo: a água, sau­dável da vida e da terra, o ar, o fogo, etc. Elementos naturais que apreciamos mais pelo lado do equilíbrio da ordem. Porém, existem nestes elementos as forças dos grandes perigos, eles não são em tudo muito afectivos e apetecíveis e, em certas situações, são até medonhos e causam cenas de muito horror. Qualquer dos elementos enumerados serviria para provar os nossos sentimentos de medo, mas para uma prova mais ime­diata, poderemos eleger o fogo, como fenómeno destas angús­tias e contradições.

 

Macedo Teixeira, Quando as Estrelas Acordam, Sítio do Livro, Lisboa, Julho de 2014, pp. 21 a 24.

 

 

When the Stars Awake (6)

Macedo Teixeira

This habit to the infinite is latent in us, whatever may be the matrix of our origin and it will not be the customs and traditions that will impede it of revealing itself fully, unless that in our education there is not the caution of exercising ourselves in discovering and relating in an interactive way the potentialities of the natural order, since in this case, the use that we will make of this habit will place us, only, within the finitude of what is vulgar and will not provide us a view beyond what is concrete. Urbanity brought the anxiety and the distance from the fields, because we were letting them throughout our history to live better in the cities or else, of them we only have pictures, since we know very little where the food we eat is cultivated. Urbanity did not bring the essence in its pure state, to turn the existence into what it has of more human and, consequently, more affective, emotional and closer. The essence will have to be complete on all Earth, and our customs, because they are so urbanized, lead us to see it and feel it, not as it is, but accordingly to the social life we live day by day. The habit of communicating takes us to speech, but the meaning we seek may not exceed the use of the words, when these only impress and captivate and, in any lapse of time, in which we communicate. The habit to the Infinite becomes fundamental in all situations, but standing out, in this case, by the use of more emotional and affective words that appeal to the feelings of the heart and of personal subjectivity; this will be the main logic of the closeness of human beings to the openness of the Self to the Other. It will be, also, the best way of interaction at the initial moment of communication, even though, as soon as we are completely aware and related with the subject, we should try to select the meanings, so that the use of the words reflects the rational forms and elevate our thought to its natural state and to the situations to live in the most valuable impersonality. Communication should be made to go in search of the solutions necessary to life and to discover how to remediate what is missing or to increase what we already have because it is not enough.

The search for the decisions we have to take in the walk towards the meeting of our life impels us to live through the spirit, opens itself to reason and understanding, and may become a pure act in the ascent to intuition. It is a search that we desire, because we have thirst for the union of this force, which gains meaning, as soon as our understanding reaches the comprehension that we are the most elementary beings of the dreams we want to fulfill. But this opening of the thought, we do not reach it without our voluntary option to this walk and without the help of the Guide, Who guides us and does not let us lose ourselves, when we begin to look for the marks of the steps we have already taken until this new moment of our existence. When we begin voluntarily to understand that we will only be closer to that meeting and its plenitude, when from the steps we take with our body, we will go through the biological order, reach the psychological order and move ourselves to the spiritual dimension, in which we will start living in communion with the spirit of That who Is the Way, the Truth and Life. By that time, we will be closer, or already in his way, since He will help us in the opening of our spiritual life. Without this conviction and possibility, we would neither seek nor run some psychological risks that this change of order implies at certain moments of life in which we are not yet very stable beings. In this new order and in this other walk, we will be already in the spiritual closeness, but the thirst for strength, which comes now from the spirit, will still only be quenched for a little time and only on certain occasions. Because of this motive, we will return to the same state of anxiety and of great tension, while this communion is not made always with its action and presence; while we do not reach That, who is the source from where spouts the life that will make us feel fully and at all the time we live. And if the guide directs us and does not let us lose ourselves, that means that we are voluntary in the walk towards him and that this is the walk that will reunite us in the conjugation of the senses and reason, and will show us the spirituality in other singularities of the image of infinite expression that glorifies our body and our soul. It will also be in this walk that we shelter ourselves in the reflection of the dream that we will reach, when we will meet with That, who will teach us to drink from our own hands, from the source the spirit spouts from, which connects our being to another dimension of life and makes our love be the most profound expression of this connection.

When the stars awake, we are integrated in all parts and we form an undividable and immutable whole. However, everyone who reaches this plenitude can no longer guide themselves only by the faculties that allows them the feeling and the knowledge; they will have to believe by faith that to live fully is to live reality, but also the dream, and these elements are experienced by what one sees and does, with the use in action of the faculties and, in special, by the action of the spirit that receives the power from its own source. It is not that we should not consider important every ideal, it has to do with our will and, without it, we would not have references, we would lose ourselves within our space and within our time. But if life is the expression of the spirit and its strength, why not live better through these realities, without us fixing ourselves on any transient power, living alone and apparently well? And why not walk with all our strengths to the Lord of the Source, so that we connect ourselves to Him and drink from the spirit that sanctifies our life and makes us not to have thirst again, which make us so anxious and always so confused? To walk, after all, with a spiritual ideal, because ideality in thought will be the original matrix and originary of the will to become the image and similarity of that who we dream to be. When we say that Earth has uncountable mysteries and richnesses, we almost always refer to what dazzles us and pleases us or to what is immediately necessary to our survival, like for example: water, healthy of life and of the earth, air, fire, etc. natural elements that we appreciate more by the side of the equilibrium of the order. However, there are in these elements the forces of great dangers, they are not in all very affective and appetizing and, in certain situations, they are even very frightening and cause scenes of much horror. Any of the enumerated elements would serve to prove our feelings of fear, but for a more immediate proof, we may select fire, as a phenomenon of these anguishes and contradictions.

 

Macedo Teixeira, When the Stars Awake, Sítio do Livro, Lisbon, July 2014, pages 21 to 24.

 

 

Quando as Estrelas Acordam (5) / When the Stars Awake (5)

31-10-2017 14:01

Quando as Estrelas Acordam (5)

 

    O ar que respiramos é uma fonte da vida que, como todas as outras fontes, não se compadece com qualquer ideal de pro­gresso que não considere estes valores como a razão do sucesso no desenvolvimento saudável da nossa espécie. Já nos bastam as consequências negativas resultantes das mudanças naturais, especialmente das mudanças mais imprevisíveis e perigosas. Há um tempo dos sentidos e da razão, um tempo em que a idade é exclusiva do eu que é afirmativo e dominador, que se opõe a todos os elementos que vêm de fora e que aparente­mente lhe podem alterar a vontade. É um tempo em que a von­tade é maior do que a razão e tantas vezes maior que a ver­dade; um tempo em que as idades são de conflito nos desejos e, por consequência, na formação da consciência sobre a von­tade para o que devemos ter. Somos mais exteriores, vemos e sentimos a realidade com os nossos olhos iluminados por desejos muito emotivos e insistimos à força que se realizem contra o que é racional e moralmente bom.

   Pode dizer-se que este tempo é aplicável no crescimento das civilizações, como no crescimento da Humanidade; no crescimento do progresso como dos conhecimentos, porém não se pode omitir que este tempo não seja composto de uma certa dificuldade para as decisões sobre a verdade que é pre­ciso manter e descobrir em toda a sua dimensão.

   Ser com a existência e com a mudança implica um reco­lhimento do nosso ser em relação a todas as confusões exte­riores, que apesar de normais, precisam de ser depuradas, para uma compreensão mais perfeita do que significam e do sentido a dar-lhes. A individualidade é um valor, mas não é o valor mais elevado, e o estado de consciência geral sobre os valores não se adquire só pela vontade de cada um; não temos força suficiente para nos libertarmos do sentimento errado de supe­rioridade que se enraizou na nossa espécie. Só a força do espí­rito esclarece o que falta ao corpo; e a vontade é uma força do desejo que, por sua vez, remete para uma parte do inconsciente que enquanto não é esclarecido provoca efeito nebuloso na vida da nossa alma e do nosso ser. Há uma certa necessidade do corpo em manter uma ligação de todas as partes, ele é animado pela alma e só através dessa ligação e coexistência poderá manter todas as partes vitais intactas. É no corpo que se sente a dor das coisas más e a alegria das coisas boas. Destas razões decorre a necessidade de este ser a imagem real de cada pessoa, mas até conseguir-se a autoconsciência dessa imagem é necessária uma busca permanente do sentido cor­poral e necessário um guia interior que nos oriente para o sentido desse caminho. E enquanto não pudermos ser nós de uma forma autónoma a percorrê-lo com a nossa existência e mudança, que possamos ao menos coexistir em simultâneo, com o poder Daquele que é a luz e força que nos ilumina em todas as caminhadas. Há em cada um de nós um sentimento natural sobre todas as coisas e todos os seres; apreciar o que há de belo e bom e contemplar o que nos fascina e atrai são qua­lidades do gosto mas também do hábito que mantemos com elas. As veredas são as direcções dos lugares; os montes são as elevações dos caminhos; os vales são as depressões entre os montes, mas há em tudo isto uma ponte para os nossos olhares, que despertam sentimentos de paixão pelo extraordinário enquanto os hábitos para o infinito nos vão levando mais além. São qualidades que se desenvolvem com as nossas experiên­cias desde a mais tenra idade, que têm uma orientação local na raiz da cidade ou do campo e que se vão misturando nos saltos da adaptação ao ambiente em geral. Quem foi habituado a usar a terra para tirar dela o seu sustento manterá hábitos de maior ruralidade e de maior aspereza sobre a beleza do que há na Terra. Está habituado a usá-la para sobreviver, traba­lhando os campos para o seu sustento. Não será como o via­jante que passa pelos lugares para fotografar as paisagens reco­lhendo as imagens do que é mais belo; apreendendo a matéria como arte de impressionar pelo seu fascínio. Uma paisagem vista pelos olhos de alguém em viagem e contemplada por ins­tantes com sentimento estético tem um efeito sobre a memória, que mesmo que não sejamos artistas, não deixaremos de sentir um certo deslumbramento e, por instantes, tudo faremos para a captarmos em todas as sensações que nos ocorrem enquanto a contemplamos.

 

Macedo Teixeira, Quando as Estrelas Acordam, Sítio do Livro, Lisboa, Julho de 2014, pp. 18 a 21.

 

 

When the Stars Awake (5)

 

The air we breathe is a source of life that, like every other source, is not compatible with any ideal of progress that does not consider these values the reason of success in the healthy development of our species. It already suffices the negative consequences resulting from natural changes, especially from the most unpredictable and dangerous changes. There is a time of the senses and of reason, a time when age is exclusive of the self that is affirmative and domineering, that opposes himself to all the elements that come from outside and that apparently may alter it his will. It is a time when the will is greater than reason and so many times greater than the truth; a time when the ages are of conflict in the wishes and, by consequence, in the formation of conscience over the will to what we ought to have. We are more external, we see and feel reality with our eyes illuminated by very emotive desires and we insist forcedly that they are fulfilled against what is rational and morally good.

We may say that this time is applicable in the growth of civilizations, like in the growth of Humanity; in the growth of progress as of knowledges, however we cannot omit that this time is not composed of a certain difficulty to the decisions about the truth that in necessary to keep in its whole dimension.

To be with the existence and with change implies a seclusion of our being regarding all the external confusions, which, even though normal, need to be purified, to a more perfect comprehension of what they mean and of the meaning to give them. Individuality is a value, but it is not the most elevated value, and the state of general conscience about the values is not gained only by the will of each one; we do not have enough strength to free ourselves of the wrong feeling of superiority that took root in our species. Only the strength of spirit clarifies what the body lacks; and will is only a strength of the wish that, in turn, refers to a part of the unconscious, which, while it is not clarified, causes a nebulous effect in the life of our soul and of our being. There is a certain necessity of the body of keeping a connection of all parts, it is animated by the soul, and only through this connection it may keep all its vital parts intact. It is in the body that we feel the pain of bad things and the joy of good things. From these reasons results the necessity of it being the real image of each person, but until we achieve the self-consciousness of that image, it is necessary a permanent search of the corporal sense and it is necessary an internal guide that guides us towards the direction of that path. And while we cannot cover it an autonomous way with our existence and change, at least may we coexist simultaneously, with the power of That who is the light and force that illuminates us in all walks. There is in each one of us a natural feeling about all things and all beings; to appreciate what exists of beauty and good and to contemplate what fascinates us and attracts us are qualities of taste but also of the habit we maintain with them. Trails are the directions of places; hills are the elevations of tracks; valleys are the depressions between the hills, but in all of this there is a bridge to our looks, which awaken feelings of passion for the extraordinary, while the habits towards the infinite will take us beyond. They are qualities that are developed with our experiences from an early age, which have a local orientation in the root of the city or the country and that are mixing in the jumps of adaptation to the environment in general. Who was accustomed to use land to take from it their sustenance will keep habits of greater rurality and of greater asperity over the beauty of what there is on Earth. They are accustomed to use it to survive, working the fields for their sustenance. It will not be like the traveler who passes by the places to photograph the landscapes collecting pictures of what is most beautiful; apprehending matter as art to impress by its fascination. A landscape seen by the eyes of someone in a journey and contemplated by moments with an aesthetical feeling has an effect over the memory, which, even though we are not artists, we will not stop feeling a certain dazzle and, for moments, we will do everything to capture it in all the sensations that occur to us while we contemplate it.

 

Macedo Teixeira, When the Stars Awake, Sítio do Livro, Lisbon, July 2014, pages 18 to 21.

 

 

Quando as Estrelas Acordam (4) / When the Stars Awake (4)

09-10-2017 20:14

Quando as Estrelas Acordam (4)

 

    É necessário pensar deste modo e torna-se necessário viver de modo semelhante, isto é, viver segundo um ideal formal e material, mas também numa idealidade que exceda a vida locomotora e biológica e se torne também mental e emo­cional. Uma idealidade que se viva na espécie e que permita uma possibilidade mais criadora para dar fundamento a todas as ordens e traçar no planeta planos fixos para tornar possível a sua convergência.

   A unificação do ser resulta de uma dinâmica expressiva que se complementa com aquilo que vai para além do seu suporte como base para a sobrevivência. Ressalvando os exa­geros, poderemos dizer que tudo quanto o Universo cria ou o Homem inventa é necessário para a unificação do ser e para manter a sua indivisibilidade, sendo que a sua totalidade exce­derá estes limites. Há, por isso, uma necessidade de crescermos em relação com o ambiente e de sermos completados com expe­riências de realidades que nos integrem e nos façam descobrir as diferenças entre os seres. Já não se tratará, naturalmente, de utilizar os bens naturais, mas de ser também uma expressão dessa utilização. Partindo de uma idealidade a priori, na qual vivenciaremos um sentimento de contentamento resultante do valor que cresce em nós com a possibilidade da apropriação de qualquer bem, ainda que reconhecendo que é algo que muda e se transforma, que não permanece sempre igual.

   Quando as estrelas acordam abrem-nos o pensamento para a Idealidade, para um estado de pensamento puro que se entrega na doação do espírito até aos limites da transcen­dência. Já não será tanto a causa que nos interpela, mas mais o poder que a torna possível. Os ideais são necessários, mas sem uma abertura ao ser do próprio ideal na sua eterna pureza e ilimitada mudança, não experimentaremos o sentimento inex­plicável da doação plena aos mistérios do Universo.

   Um ideal é aquilo a que aspiramos, mas se verificarmos como se vão revelando as expressões do Mundo nas diversas composições, se repararmos na sua permanente alteração, somos inclinados voluntariamente a admitir que o ideal é limi­tativo e, em certos casos, tornamo-lo fantasioso, pois tendemos para sentimentos e preferências demasiado pessoais e excessi­vamente contrárias à ordem natural da vida. Cortar árvores, secar as fontes, drenar os lagos pode ser uma atitude tecno­lógica que tem em conta certos ideais de progresso e moder­nidade. Mas se pensarmos no que estas acções resolvem em relação à vida do grupo e no que afectam em relação à vida humana, ficamos a pensar se não seria preferível que uma estrada tivesse mais pontes, fosse menos rectilínea ou fosse mais longo o caminho; o dinheiro, quando se gasta em excesso, faz diferença na economia dos povos; mas a vida, quando doente, aprecia pouco as vantagens e o dinheiro tem menos significado. Se pensarmos na quantidade de ar puro que pre­cisamos para viver e se pensarmos na dificuldade que a natu­reza tem para manter os valores ambientais necessários, não se poderá defender nenhum ideal de progresso que cons­tranja estas forças vitais e enfraqueça a sua existência. Assim, será mais sensato que aspiremos a um ideal de relação que mantenha o ser e a ordem cósmica integrados, sem lhes criar dependências nem fracturas; aspirar a um ideal de movimento e vida que possa regenerar-se; um ideal que não seja tão limi­tativo e que tenha mais de idealidade do que de limitação. O valor da existência está na sua dinâmica e mudança e não no que força a vida a determinar-se e a limitar-se por constran­gimento. Pensar e fazer devem acontecer sempre como movi­mentos da vontade de mudar, mas serem conforme a necessi­dade de viver.

 

Macedo Teixeira, Quando as Estrelas Acordam, Sítio do Livro, Lisboa, Julho de 2014, pp. 16 a 18.

 

 

When the Stars Awake (4)

 

It is necessary to think this way and it becomes necessary to live in a similar way, that is, to live according to a formal and material ideal, but also in an ideality that exceeds the locomotor and biologic life and that becomes also mental and emotional. An ideality that is lived in the species and that permits a more creative possibility to give foundation to all orders and to draw on the planet fixed plans to make possible its convergence.

The unification of the being results from an expressive dynamics that is complemented with that which goes beyond its support as a basis to survival. Excepting the exaggerations, we may say that all that the Universe creates or man invents is necessary to the unification of the being and to maintain its indivisibility, and its totality will exceed these limits. There is, therefore, a possibility of us growing in relationship with the environment and of being completed with experiences of realities that integrate us and make us find out the differences between the beings. It will not be, naturally, about utilizing the natural goods, but about also being an expression of that utilization. Starting from an a priori ideality, in which we will experience a feeling of contentment resultant from the value that grows in us with the possibility of appropriation of any good, even though recognizing that it is something that changes and transforms itself, that does not stay always the same.

When the stars awake, they open us the thought to Ideality, to a state of pure thought that gives itself in the donation of the spirit to the limits of transcendence. It will not be so the cause that interpellates us, but more the power that turns it possible. The ideals are necessary, but without an openness to the being of the very ideal in its eternal purity and unlimited change, we will not experience the unexplainable feeling of the full donation to the mysteries of the Universe.

An ideal is that which we aspire to, but if we verify how the expressions of the world reveal themselves in the various compositions, if we notice its permanent alteration, we are voluntarily inclined to admit that the ideal is limitative and, in certain cases, we render it fanciful, since we tend to feelings and preferences too personal and excessively contrary to the natural order of life. To fell trees, to dry fountains, to drain lakes may be a technological attitude that bears in mind certain ideals of progress and modernity. But if we think about what these actions solve in relation to the life of the group and about what they affect in relation to human life, we get to think if it would not be preferable that a road had more bridges, were less rectilinear or the path were longer; money, when is spent excessively, makes a difference in the economy of the peoples; but life, when ill, appreciates little the advantages, and money has less meaning. If we think about the quantity of pure air that we need to live, and if we think about the difficulty that nature has to keep the necessary environmental values, we cannot defend any ideal of progress that constrains these vital forces and weakens its existence. Thus, it will be wiser that we aspire to an ideal of relation that keeps the being and the cosmic order integrated, without creating them dependences nor fractures; to aspire to an ideal of movement and life that can regenerate itself; an ideal that is not so limitative and has more of ideality than of limitation. The value of existence is in its dynamics and change, but not in what forces life to determine itself and to limit itself by constraint. To think and to do must always happen as movements of the will to change, but be in accordance with the necessity of living.

 

Macedo Teixeira, When the Stars Awake, Sítio do Livro, Lisbon, July 2014, pages 16 to 18.

 

 

Quando as Estrelas Acordam (3) / When the Stars Awake (3)

13-09-2017 22:49

Quando as Estrelas Acordam (3)

 

    Desta primeira reflexão, sobre as substâncias, pode con­cluir-se que a Terra encerra mistérios incontáveis, mesmo nas riquezas já exploradas; possui formas e relevos que seguimos nos pensamentos e nos agarram nos picos e montanhas para se aproximarem do horizonte e ficarem mais perto de Deus. As formas físicas são os traços geométricos das hipóteses a con­cluir noutras formas ainda mais complexas. Neste deslum­bramento, o nosso pensamento agita-se em frenesim para elevar-se da fisicalidade dos montes e dos desfiladeiros até à dimensão estelar da Natureza, onde o nosso olhar se queda e as várias questões se levantam. Mais perplexa a sua origem, mas também a de todos os demais planetas e todos os ele­mentos do Universo. A Ciência descreve que a Terra formou­-se a partir de uma nuvem de poeiras e gás que vagueava no espaço. Os minerais densos concentraram-se na região central enquanto os menos densos constituíram uma delgada crosta rochosa. Contudo, as primeiras formas de vida conhecidas (bactérias e cianobactérias) apenas apareceram há cerca de 3.500 milhões de anos. Conhecendo-se plantas e animais mais complexos desde há 570 milhões de anos. A partir de então, surgiram milhares de espécies animais e vegetais. Algumas delas subsistem enquanto outras se extinguiram.

    Tal como as espécies que a habitam, a Terra encontra-se em permanente modificação: os continentes atingiram a sua localização actual há cerca de 50 milhões de anos, embora con­tinuem a deslocar-se lentamente na superfície do planeta. Os diversos fenómenos que se referem nesta pequena história podem explicar-se racionalmente, interpretar-se na relação de causa-efeito, mas o embelezamento que nos proporciona cada imagem que destas formas retiramos superará qualquer exame de laboratório para nos levar até uma quietude inexplicável.

    Ao contemplar, expressiva e dinamicamente a Terra, o nosso pensamento místico comunga com a alma e o corpo num resgate incondicional de qualquer prisão, obstáculo ou impedimento, para que assim tudo se liberte nas formas do nosso ser.

    Das hipóteses vamos acordando para as certezas possíveis e os traços geométricos vão identificando as ordens e trans­formações do espaço. Incontáveis são também as riquezas a explorar no desconhecido; qualquer sentido do pensar abre clareiras e desperta registos que a memória nos apelará para a sua decifração. Nestes segredos abre-se-nos uma inquietação que não sossega com as hipóteses nem certezas previamente captadas; se é possível alguma serenidade, esta é o resultado do encontro com as origens noutras partes e noutros lugares, um encontro com a nossa própria origem. São estas formas que se erguem às alturas ou descem às profundidades que em silêncio natural abrem os caminhos do pensar nas coisas, não apenas como objectos que nos servem nos modos mais elementares, mas sobretudo como elementos que participam num movimento que não acaba em cada mudança ou trans­formação. Sobretudo, como elementos que, arrancados à sua origem, nos deixam a impressão de que ficarão sós a gemer de dor até que uma outra função os torne significativos. Quando as estrelas acordam não nos deixam mais sem piedade nem indiferença; não nos deixam mais a existência sem companhia nem sem vontade de sermos relacionais e interactivos com a Humanidade e com a Natureza. São elas que, para um sujeito autor da arte, quando inspirado pela luz da criação, o inclinam a olhar e a registar cada forma e cada ser no seu modo de sentir e manifestar o sofrimento, quando arrancados do seu lugar e alterados na sua estrutura.

    O Universo respira por uma ordem constituída por ele­mentos que escapam a qualquer conta que se pretenda aca­bada; qualquer dos seus elementos faz parte de uma compo­sição que excede qualquer limite ou qualquer quantidade. É de crer que esta seja uma das razões que nos torna expec­tantes e nos motiva a imaginar o Mundo para além do que nos diz o determinismo universal: nada acontece na natureza sem que uma causa lhe dê origem. A imagem que vamos formando do Universo leva-nos para além do que o nosso pensamento causal propõe; não existem causas para tudo o que acontece. E se o Universo é infinito, nenhuma conta real o poderá quanti­ficar e as causas estão relacionadas com os fenómenos que são na maior parte das vezes realidades localizadas, embora estas estejam em conexão com outras realidades de uma sucessão infinita. Esta apetência para desvendar o Universo impele­-nos para a actividade de investigar para além das causas e das quantificações, justificando, deste modo, aquela que é uma das competências do nosso raciocínio: relacionar tudo aquilo sobre o qual se pensa, propondo e resolvendo as dificuldades que o desconhecido nos vai mostrando, admitindo sempre que as causas relacionam os factos, mas estes podem não se esgotar nas quantidades nem servir para todos os fenómenos, mesmo que sejam iguais. Sem este poder de pensar para além de todos os limites, não conheceríamos as leis nem seríamos capazes de atingir outras possibilidades ainda mais complexas. Tudo rela­cionamos e quantificamos; e só quando emergimos na abs­tracção das possibilidades e dos limites é que percebemos se temos de nos conter um pouco, já que algumas realidades se distendem para além do finito e da temporalidade, ele­vando-se até outra ordem pelos domínios da transcendência. Verificamos, deste modo, que algumas realidades se projectam numa idealidade dinâmica inatingível, em que a vida de cada elemento é a forma da sua essência infinita, mas mesmo assim, continuaremos a sonhar com a possibilidade de uma abs­tracção desta essência, ainda que seja infinita.

 

Macedo Teixeira, Quando as Estrelas Acordam, Sítio do Livro, Lisboa, Julho de 2014, pp. 13 a 16.

 

 

When the Stars Awake (3)

 

From this first reflection, about the substances, we may conclude that the Earth contains countless mysteries, even in the already explored richnesses; it possesses forms and reliefs that we follow in our thoughts and take hold of us on the peaks and mountains to come closer to the horizon and stay nearer to God. The physical forms are the geometric strokes of the hypotheses to conclude on other even more complex forms. Within this fascination, our thought frets in a frenzy to elevate itself above the physicality of the hills and gorges up to the stellar dimension of nature, where our glance stays and several questions are raised. More perplexed its origin, but also that of the rest of the planets and all elements of the Universe. Science describes that the Earth was formed from a cloud of dust and gas that wandered in space. The dense minerals concentrated themselves in the central region while the less dense ones constituted a thin rocky crust. However, the first known life forms (bacteria and cyanobacteria) only appeared about 3,500 million years ago. And more complex plants and animals from 570 million years ago are known. From then on, thousands of animal and vegetable species appeared. Some of them subsist, while others became extinct.

Like the species that inhabit it, the Earth is in permanent modification: the continents reached their current location about 50 million years ago, although they continue to move slowly on the surface of the planet. The several phenomena that are referred in this little story may be rationally explained, be interpreted in the cause-effect relation, but the embellishment that each picture we take from these forms gives us will surpass any laboratory test to take us to an unexplainable quietness.

By contemplating, expressively and dynamically, the Earth, our mystical thought communicates with our soul and body in an unconditional rescue from any prison, obstacle or impediment, so that everything is liberated in the forms of our being.

From the hypotheses we are awaking to the possible certainties, and the geometric strokes will identify the orders and transformations of space. Countless are also the richnesses to be explored in the unknown; any meaning of the thinking opens glades and evokes records that the memory will appeal to us to their deciphering. Within these secrets, we are opened an inquietude that does not calm down with the hypotheses nor with the certainties previously grasped; if it is possible some serenity, this is the result of the encounter with the origins in other parts and in other places, an encounter with our own origin. It is these forms that rise to the heights or descend to the deepnesses that in natural silence open the ways of the thinking about things, not only as objects that serve us in the more elementary ways, but above all as elements that participate in a movement that does not end in each change or transformation. Especially as elements that, taken off of their origin, leave us the impression that they will stay alone groaning with pain until another function renders them meaningful. When the stars awake, they do neither leave us anymore without pity nor indifference; they do neither leave to us the existence without company nor without will to be relational and interactive with nature. It is them that, to a subject author of art, when inspired by the light of creation, incline him or her to look and record each form and each being in their way of feeling and manifesting the suffering, when uprooted from their place and altered in their structure.

The universe breathes by an order constituted by elements that escape to any calculation pretended to be finished; any of its elements is part of a composition that exceeds any limit or any quantity. It is reasonable to think that this is one of the reasons that make us expectants and motivate us to imagine the world beyond what tells us the universal determinism: nothing happens in nature without a cause that originates it. The picture we are forming of the universe takes us beyond what our causal thought proposes; there are no causes for everything that happens. And if the universe if infinite, no real calculation can quantify it and the causes are related to the phenomena that are mostly localized realities, although these are in connection with other realities of an infinite succession.  This appetence for unraveling the universe impels us to the activity of investigating beyond the causes and quantification, justifying, thus, that which is one of the competences of our reasoning: to relate everything we think about, proposing and resolving the difficulties that the unknown is showing us, admitting always that the causes relate the facts, but these may not run out in the quantities nor serve to all phenomena, even if they are equal. Without this power of thinking beyond all limits, we would neither know the laws nor would be capable of reaching other even more complex possibilities. We relate and quantify everything; and only when we emerge in the abstraction of the possibilities and of the limits is when we understand if we have to contain ourselves a bit, since some realities spread beyond the finite and temporality, elevating themselves up to other order by the domains of transcendence. We verify, thus, that some realities project themselves in an unreachable dynamic ideality, in which the life of each element is the form of its infinite essence, but even so, we will continue to dream with the possibility of an abstraction of this essence, even if it is infinite.

 

Macedo Teixeira, When the Stars Awake, Sítio do Livro, Lisbon, July 2014, pages 13 to 16.

 

 

Quando as Estrelas Acordam (2) / When the Stars Awake (2)

23-08-2017 22:23

Quando as Estrelas Acordam (2)

 

    No final do século XVIII, vários investigadores estudaram a composição da água, descobrindo que um dos seus ele­mentos integrantes era o oxigénio. Em 1780, Henri Cavendish observou que, quando se efectuava a combustão de oxigénio e “ar combustível” (isto é, hidrogénio), em certas proporções, ocorria uma forte explosão. O mais notável, porém, era que no recipiente utilizado para a experiência apareciam gotinhas de água.

    O inglês Dalton, pai da moderna teoria atómica, estabe­leceu que uma molécula de água se compunha de um átomo de oxigénio e outro de hidrogénio. Mais tarde, o italiano Avogadro chegou à fórmula molecular correcta da água: dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio, que se expressa em linguagem simbólica pela conhecida fórmula H2O. Porém, a água não se compõe de um só tipo de moléculas. Os átomos de oxigénio, como os de hidrogénio, podem apresentar ligeiras diferenças entre si: diz-se que esses elementos têm isótopos diferentes. Um dos que aparecem no hidrogénio (entra em 0,01%) pesa o dobro que o próprio átomo de hidrogénio. Se a água o pos­suir, é mais pesada que a normal, recebendo o nome de água-pesada; não mata a sede e é frequentemente utilizada em tra­balhos de radioactividade. As moléculas da água têm também outra propriedade. As suas cargas eléctricas repartem-se nos extremos da molécula, de modo que um deles se torna positivo e o outro negativo. As moléculas são, pois, bipolares e por isso atraem-se, como se fossem pequenos ímãs. A esse tipo de união é chamado ponte de hidrogénio e dá origem a várias proprie­dades da água. Em pequena quantidade a água é incolor, mas em volumes maiores, em piscinas, por exemplo, aparece de cor azul esverdeada. Isto porque a água absorve as ondas amarelas e vermelhas do espectro (ondas largas), mas reflecte os raios azuis e verdes.

    As moléculas da água mantêm-se unidas graças às pontes de hidrogénio e esta substância permanece em forma líquida até aos 100 graus centígrados. Devido à união muito forte das moléculas, a água, para aumentar de temperatura, necessita de mais calor que quase todas as outras substâncias, mas porque o armazena melhor que estas, faz com que o nosso planeta seja habitável graças à grande capacidade calorífera da água. A que é aquecida no Equador dirige-se ao Norte e ao Sul, aquecendo as costas às quais chega.

    Quando enchemos um copo com água fresca, não imagi­namos que já tenha sido utilizada milhares de vezes. A quan­tidade de água que há no mundo é sempre a mesma: a que hoje corre através das condutas já existia há milhões de anos. O facto de que possamos utilizar várias vezes a mesma água é o resultado do seu percurso num ciclo constante na natu­reza. A água que se encontra à superfície da terra passa ao ar por meio da evaporação. Quando o vapor de água contido no ar alcança certa concentração, condensa-se e volta à terra em forma de precipitação. A fonte de energia para o ciclo da água é o Sol. Com efeito, o Sol liberta a energia exacta para que a água, ao evaporar, passe à atmosfera e possa voltar a cair sobre a terra [2].

    Tales de Mileto também tinha razão quando dizia que a água era fonte e princípio de vida. Nascemos dentro de uma tina de água (sendo a parte líquida superior à parte sólida do planeta) e não podemos viver sem ela, uma vez que é fonte e princípio de vida e é uma das principais substâncias para tornar habitável o nosso planeta.

    E assim se deseja que se mantenha. Na Idealidade que pro­ponho para viver, esta e outras substâncias devem ser utili­zadas e apreciadas em forma de contemplação e com a máxima sensibilidade pela sua importância na nossa sobrevivência.

 

Macedo Teixeira, Quando as Estrelas Acordam, Sítio do Livro, Lisboa, Julho de 2014, pp. 11 a 13.

 


[2] Enciclopédia Combi Visual (Grolier), Volume N.º 1, Temática “A Água”, páginas 1 a 3.

 

 

When the Stars Awake (2)

 

At the end of the XVIII century, several investigators studied the water composition, discovering that one of its integrating elements was oxygen. In 1780, Henri Cavendish observed that, when occurred the combustion of oxygen and “combustible air” (that is, hydrogen), in certain proportions, occurred a strong explosion. The most remarkable thing, however, was that in the recipient used for the experiment appeared little drops of water.

The English Dalton, father of the modern atomic theory, established that a water molecule was composed of an atom of oxygen and another of hydrogen. Later, the Italian Avogadro came to the correct molecular formula of water: two atoms of hydrogen and one of oxygen, which is expressed in symbolic language by the known formula H2O. However, water is not only composed of a single kind of molecules. Oxygen atoms, like the hydrogen ones, may present light differences between them: it is said that those elements have different isotopes. One of those that appear in hydrogen (integrates 0,01%) weights the double of the own atom of hydrogen. If water has it, it is heavier than the normal, receiving the name of heavy water; it does not quench the thirst and it is often used in works of radioactivity. The water molecules also have another property. Their electric charges are divided on the extremities of the molecule, so that one of them becomes positive and the other negative. Molecules are, thus, bipolar, and therefore attract each other, like if they were little magnets. That type of union is called hydrogen bridge and gives rise to several properties of water. In small amount, the water is colorless, but in greater volumes, in pools, for example, it appears as of greenish-blue color. This because the water absorbs the yellow and red waves of the specter (long waves), but it reflects the blue and green rays.

Water molecules keep themselves connected thanks to the hydrogen bridges, and this substance remains in liquid form up to 100 centigrade degrees. Due to this very strong connection of the molecules, water, to raise its temperature, needs more heat than almost every other substance, but because it stores it better than these, it makes our planet habitable thanks to the great heat capacity of water. That which is heated on the Equator heads to north and south, heating the shores it reaches.

When we fill a glass with fresh water, we do not imagine that it has already been utilized. The quantity of water there is in the world is always the same: that which runs through conduits already existed millions of years ago. The fact that we can utilize several times the same water is the result of its course in a constant cycle in nature. The water that is on the surface of the earth passes to the air by means of evaporation. When the vapor water contained in the air reaches a certain concentration, it condenses itself and comes back to earth in the form of precipitation. The energy source to the water cycle is the Sun. Indeed, the Sun liberates the exact energy so that water, when it evaporates, passes to the atmosphere and may fall again over the earth [2].

Thales of Miletus was also right when he said that water was source and principle of life. We are born from a tub of water (being the liquid part superior to the solid part of the planet) and we cannot live without it, since it is source and principle of life, and it is one of the main substances to render habitable our planet.

And it is desired that remains so. In the Ideality that I propose to live, this and other substances should be used and appreciated in the form of contemplation and with the maximum sensitivity because of its importance in our survival.

 

Macedo Teixeira, When the Stars Awake, Sítio do Livro, Lisbon, July 2014, pages 11 to 13.

 


[2] Visual Encyclopedia Combi (Grolier), Volume N.º 1, Theme “The Water”, pages 1 to 3.

 

 

Quando as Estrelas Acordam (1) / When the Stars Awake (1)

04-08-2017 19:14

Quando as Estrelas Acordam (1)

 

Nótula do Autor

 

    Quando as Estrelas Acordam surge como uma proposta de reflexão filosófico-cultural plasmada de raciocínios de con­teúdo diversificado nas áreas do conhecimento. É estruturada com algumas explicações científicas que lhe dão um sentido objectivo e porventura mais prático.

    O Fogo, a Água, a Terra, o Ar são elementos naturais que sempre despertaram no Homem a vontade de os conhecer melhor. Porém, o sentido da Idealidade como aspiração, que se pretende propor como forma possível para equação de algumas das dificuldades na vivência contemporânea, faz também emergir a necessidade do pensamento subjectivo que integra a realidade, conferindo-lhe uma dimensão estética, uma dimensão religiosa e alguma ficção.

    Por isso, esta proposta inclui na nossa existência a possi­bilidade das Estrelas, que guiam e iluminam a totalidade do Ser. Já não serão apenas a Alma e o Corpo as partes da coexis­tência da nossa vida, mas também as Estrelas terão um papel tão importante como aquelas na coesão, formação e desenvol­vimento da nossa humanidade.

    Assim, dadas as limitações dos ideais de Justiça, da Família, do Bem, da Verdade, do Amor, é-nos proposta uma interacção contextualizada em ambiente de integração geral de todos os elementos naturais e sociais. Esta interacção deve impelir-nos para o movimento da Idealidade, que permite o Absoluto, no qual será possível ser abstraída a mudança na Alma (ao nível da Razão/pensamento inteligível), no Corpo (ao nível dos Sentidos/sensibilidade das sensações), no Espírito (ao nível da Intuição/ no caminho da verdade e da vida).

    Este desenvolvimento e evolução ocorrem no despertar das Estrelas que guiam e iluminam a totalidade do Ser.

 

~~O~~

    Numa idade singular, um movimento tangencial toca em cada coisa como o ciciar do vento em escaninho percorre o espaço para se dissipar no som que deixa na lembrança ima­gens da eternidade. Toca em cada elemento de qualquer ordem e de qualquer origem com a leveza surda de exclamações sen­síveis e particularidades definidas. Toca em cada coisa, desper­tando um olhar contemplativo e livre, formando o momento em que a alma liberta uma temporalidade de disposições, também singulares e só instantaneamente lembradas no olhar de quem as retém.

    Quando as estrelas acordam, nesta idade singular, guiamo­-nos por dentro como sujeitos temporalmente físicos, sem racionalidade limitadora por um qualquer ideal nem esforço de intolerância pelo conhecimento do que nos falta para a compreensão plena de cada realidade ou acontecimento. Apenas deslumbramento, lembrança, memória, angústia, fim e desejo de estar ou de sair, de se ser outro e o mesmo, nesta impossibilidade de se ser nada nem de se ser tudo. Guiamo-nos por dentro, e cada passo e cada pensamento são espaços per­corridos pela memória e “lembrança” de que já ali estivé­ramos, porque a reminiscência e a semelhança não nos deixam ver qualquer limite de divisibilidade em cada lugar em que se guardam os registos da memória e as singularidades não têm referência, apelam-nos, mas não nos identificam. Quando as estrelas acordam, numa idade singular, seremos já compreen­sivelmente nós, num eu plural, ou ainda a dominar somente o nosso eu, se a comunhão da vida, do tempo e do crescimento, ainda não se estenderam plenamente até às comunidades do ser e do existir plenamente. Nesta idade singular, guiamo­-nos por dentro com uma plenitude ideal e uma força que é acção para a idealidade infinita. Uma idealidade que estará para além da medida das águas e das trapeiras que tranqui­lizam os olhares secos e expectantes da vida, que espera que os novos caudais percorram os sentidos estalados, para os encher e avivar, forçando de novo a erguerem-se os elementos natu­rais, pondo-os de pé, como se fossem braços que se erguem aos céus desta natureza distante. Desta natureza e num mundo onde já não será a chuva com os seus fios de água que per­turba ou acalma as mentes, que incita à espera pela aber­tura do tempo ou convida a ficarmos entre os recantos, numa entrega silenciosa a movimentos interiores para a composição de uma outra ordem qualquer. Mesmo quando esta enche demais os rios, encharca os campos, aumenta os lagos das bar­ragens e marca com mais severidade a distância e o receio pela imprevisibilidade da sua força. Ou quando, pelo poder do Sol, fica diminuída nos seus caudais, deixando secar os campos e as suas sementeiras, tornando-nos menos serena a sorte para ansiosamente a procurarmos em mergulhos e braçadas de liberdade até enchermos o nosso corpo com a sua própria vida. Agora, na experiência da Idealidade, a chuva tornar-se-á na água que se toca e se contempla, que, sendo mais que qualquer medida das suas gotas, subirá aos céus e descerá à Terra para regar os montes, as planícies e os desertos e para deixar-se levar pelas mãos do homem, até aos campos onde a verdura se mistura com o brilho da luz e se formam tonalidades estéticas num espectro ainda muito mais infinito. É nesta Idealidade que, agora, a água e outros elementos naturais, como o fogo, o ar, a terra, desejam, na vitalidade do ser regular, a vida em todos os mistérios, sem amargura e desalento, mas com a ter­nura de quem acorda sem limites de solidão e com o entu­siasmo para alcançar o que é mais profundo e mais oculto.

    Este pensamento de raiz analógica tem como finali­dade a reflexão filosófica sobre o Bem da Vida e o bem da água, que é fonte desta e, na oportunidade de evocarmos um conhecimento mais objectivo, torna-se interessante desen­volver um pouco mais a analogia pela necessidade de avaliar também este valor físico, pela sensibilidade e para além da sua materialidade.

    Para Tales de Mileto, que viveu entre os finais do século VII a.C. e começos do século VI a.C., a água era princípio mate­rial de tudo quanto existe [1]. A água cai do céu, emana da terra e enche os mares. O filósofo grego afirmava que o ar, o fogo e a terra tinham-se formado na substância água. De certo modo, Tales tinha razão: a água resulta da união de duas substâncias básicas – oxigénio e hidrogénio – sendo o ele­mento mais frequente no Universo.

 

Macedo Teixeira, Quando as Estrelas Acordam, Sítio do Livro, Lisboa, Julho de 2014, pp. 5 a 11.

 


[1] Logos Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, Volume N.º 5, página 15.

 




When the Stars Awake (1)



Author’s Short Note

 

When the Stars Awake appears as a philosophic-cultural proposal of reflection shaped by reasonings of diverse content within the areas of knowledge. It is structured with some scientific explanations that give it an objective and perhaps a more practical meaning.

Fire, Water, Earth, Air are natural elements that have always awoken in Man the will to know them better. However, the sense of Ideality as aspiration, which is intended to be proposed as a possible form to an equation of some of the difficulties in contemporary life, makes also emerge the necessity of the subjective thought that integrates reality, conferring it an aesthetical dimension, a religious dimension and some fiction.

Therefore, this proposal includes in our existence the possibility of the Stars, which guide and illuminate the totality of the Being. It will no longer be the Soul and the Body the parts of coexistence of our life, but also the Stars will have such an important role as those in cohesion, formation and development of our humanity.

Thus, given the limitations of the ideals of Justice, Family, Good, Truth, Love, it is proposed to us a contextualized interaction in an environment of general integration of all natural and social elements. This interaction should impel us to the movement of Ideality, which allows the Absolute, in which it will be possible to be abstracted the change in the Soul (at the level of Reason/intelligible thought), in the Body (at the level of the senses/sensitivity of sensations), in the Spirit (at the level of Intuition/on the way of truth and life).

This development and evolution occur in the awakening of the Stars that guide and illuminate the totality of the Being.

 

~~O~~

In a singular age, a tangential movement touches each thing like the whisper of wind in a hiding place covers the space to dissipate itself in the sound that leaves in the remembrance pictures of eternity. It touches each element of any order and of any origin with the deaf lightness of sensitive exclamations and defined particularities. Touches each thing, awakening a contemplative and free look, forming the moment at which the soul liberates a temporality of dispositions, also singular and only instantly remembered in the look of who keeps them in mind.

When the stars awake, in this singular age, we guide ourselves from within as temporally physical beings, without a limiting rationality by any ideal nor effort of intolerance by the knowledge of what lacks to us to the full comprehension of each reality or happening. Only fascination, remembrance, memory, anguish, end and desire of staying or leaving, of being another and the same, in this impossibility of neither being nothing nor being everything. We guide ourselves from within, and each step and each thought are spaces covered by the memory and the “remembrance” that we had once been there, because the reminiscence and the similarity do not let us see any limit of divisibility in each place in which the memory records are kept and the singularities do not have reference, appeal to us, but do not identify us. When the stars awake, in a singular age, we will already be understandably us, in a plural I, or still dominating solely our I, if the communion of life, of time and of growth are not yet fully extended to the communities of fully being and existing. In this singular age, we guide ourselves from within with an ideal plenitude and a strength that is action to the infinite ideality. An ideality that will be beyond the measure of the water and of the skylights that tranquilize the dry and expectant looks of life, which expects that new streams cover the cracked senses, to fill and sharpen them, forcing again the natural elements to raise themselves, making them stand up, as if they were arms that are raised to the skies of this distant nature. Of this nature and in a world where it will no longer be the rain with its water trickles that disturbs or calms the minds down, that incite to the wait for the opening of the weather or invites to stay between the corners, in a silent delivery to inner movements to the composition of any other order. Even when it fills the rivers too much, swamps the fields, enlarges the dams’ lakes and marks with more severity the distance and the fear because of the unpredictability of its strength. Or when, by the power of the Sun, it gets diminished in their flows, letting the fields and their cultivations dry up, rendering us less serene the luck to anxiously look for it in dives and swimming strokes of freedom until we fill our body with its own life. Now, in the experience of Ideality, the rain will become the water that touches and contemplates itself, which, being more than any measure of its drops, will go up to the skies and will come down to Earth to water the hills, the plains and the deserts and to let itself go by the hands of man, to the fields where greenness mixes itself with the brightness of light and aesthetical hues are formed in a specter even more infinite. It is within this Ideality that, now, water and other natural elements, like fire, air, earth, desire, in the vitality of the regular being, life in all its mysteries, without acrimony and discouragement, but with the tenderness of who awakes without limits of loneliness and with the enthusiasm to achieve what is more profound and more mysterious.

This thought of analogical root has the purpose of philosophical reflection about the Good of Life and the good of water, which is source of it and, in the opportunity of we evoking a more objective knowledge, it becomes interesting to develop a bit further the analogy by the necessity of evaluating also this physical value, by the sensitivity and beyond its materiality.

For Thales of Miletus, who lived between the endings of the 7th century BC and the beginnings of 6th century BC, water was the material principle of everything that exists [1]. Water falls from the sky, emanates from earth and fills the seas. The Greek philosopher stated that air, fire and earth had been formed in the substance water. In a certain way, Thales was right: water results from the union of two basic substances – oxygen and hydrogen – being the more frequent element in the Universe.


Macedo Teixeira, When the Stars Awake, Sítio do Livro, Lisbon, July 2014, pages 5 to 11.



[1] Logos Luso-Brazilian Encyclopedia of Philosophy, Volume N.º 5, page 15.

 

 

 

Instantes de Espírito / Moments of Spirit

07-07-2017 17:28

Instantes de Espírito

Macedo Teixeira

    Sem preocupação de tempo, nem opção rígida de horário de partida dos pequenos barcos a motor da parte da manhã que faziam o transporte fluvial de ida e volta pela ria, dirigia-se a um dos locais determinados e entrava no barco que seguia com destino ao porto fluvial de desembarque, conforme o bilhete de passagem, comprado no dia anterior e o desejo de após o desembarque poder ir ao encontro por terra da praia marítima escolhida em cada um dos dias em que se alojara naquela vasta zona balnear. Sem uma opção, pelo menos tão rígida como aquela que tinha de ter quando pretendia regressar à tarde, para chegar ainda a tempo de poder almoçar dentro da hora até ao horário-limite de almoço permitido pelo hotel.

   Aqueles locais de embarque e desembarque no porto da ria eram os que naquela zona terrestre ficavam mais próximos do hotel onde se alojara durante os dias de férias que por ali passara e eram também os locais por indicação desta unidade hoteleira onde se encontravam os barcos autorizados à responsabilidade do hotel que permitiam o acesso dos turistas pelo litoral da ria até às várias ilhas que constituíam as suas partes e que entre o percurso de uma grande extensão fluvial se poderia apreciar nas suas belezas naturais terrestre e fluvial, que entretanto a separavam da imensidão do mar, que se avistava ao longe à medida que nos íamos aproximando do porto em direção a cada uma das ilhas escolhidas.

   Chegados aí, depois de o barco ficar devidamente ancorado e as pessoas serem rapidamente amparadas pelo pessoal de bordo, os passageiros procuravam sair com grande atenção e sem atropelo, especialmente aqueles que seguiam acompanhados de crianças mais pequenas, sobretudo com maior preocupação na subida da escada, que era acentuadamente vertical e continha vários lanços até se chegar à plataforma superior.

   Depois da passagem pelas barreiras de controlo de saída do porto fluvial, cada pessoa iniciava uma caminhada maior ou menor pelos caminhos tratados pelos serviços municipais, embora arenosos e ladeados de alguma vegetação rasteira mais agreste e entremeada com flores do monte erguidas entre as areias que se amontoavam formando baixos-relevos semelhantes a dunas. Caminhos entre a floresta ladeados de árvores e casas de habitação, de comércio e de restauração, que entretanto serviam de apoio a todos os veraneantes que por ali passavam, estrangeiros ou nacionais, e embelezavam também o espaço natural daquelas ilhas que separavam o oceano Atlântico daquela parte tão linda daquela ria de águas mansas e limpas, para se dirigirem ao encontro do areal e da praia marítima, escolhida com a compra do bilhete para aquele destino em cada um dos dias de férias em que por lá permaneciam.

 

   Apesar de saber-se, como passageiro daquele barco, ao cabo de pouco tempo, ser novo naquelas viagens e certamente temporário naquela localidade, começara a fazer-se entre si e a tripulação do barco alguma rotina manifestada num sentimento alegre mais notado por viajar certamente mais vezes naquele barco e revelar na sua singularidade de afetos, que lhe era característica, uma delicadeza mais incomum no cumprimento geral e amistoso a todos os presentes, sempre com maior relevância à tripulação na pessoa do mestre da embarcação.

   De seguida, com um sorriso e num olhar-relâmpago, entretinha-se a fixar as margens da ria para, entre um olhar discreto, apreender também os rostos dos outros companheiros de viagem, tentando num instante meditar e descobrir, ainda que momentaneamente, alguns sinais dos seus estados de alma naquilo que porventura mais os preocupava e qual o melhor momento em cada uma daquelas viagens e naqueles dias de férias, que aos poucos para ele se iam aproximando do fim.

 

   Depois de entrar na embarcação, sentava-se num dos lugares que entretanto encontrava desocupado, mas procurando sempre na sua escolha ir ao encontro do gosto e do prazer pela arte fotográfica, que desejava sentir em cada uma das viagens que realizava nas primeiras horas da manhã e no regresso nas primeiras horas da tarde.

   Mantinha, entretanto como os demais, a devida atenção às instruções de segurança e ao cumprimento das regras, colocando um colete salva-vidas e mantendo-se firme no lugar, pelo menos enquanto o barco se encontrava a fazer manobras de embarque, de partida e de chegada. Mesmo assim, lá ia olhando mais intensamente na direção dos lugares e das pessoas e entre a distância que alcançava pela visão para, através da objetiva da sua máquina fotográfica, encontrar o ambiente próprio até à captação das imagens a fixar em cada momento.

   Disparando a máquina cada vez com maior insistência, chamava com estes movimentos a atenção dos outros companheiros de viagem, induzindo-os através deste modo a olharem também para os diferentes lugares e paisagens que iam avistando e lhes acabavam por revelar maior fascínio e também maior interesse.

   Entretanto, entre o encanto dos lugares alcançados pela visão natural de cada um e os flashes de luz produzidos pela máquina, que enchiam de luz o ambiente em cada fotografia tirada, também com estes gestos acabava por despertar maior interesse nos outros viajantes e, com este modo artístico, ainda que em silêncio, convidava-os a contemplar os espaços envolventes, que iam ficando para trás nos movimentos das águas que produziam uma vontade contemplativa da beleza que encerra o todo em cada momento, enquanto este ia registando seletivamente em cada fotografia as imagens mais belas dos elementos naturais que ia vendo enquanto o barco se dirigia até ao porto de desembarque.

 

   Barcos, pessoas, paisagens, tudo isto entre os movimentos ondulatórios da água que quebravam o silêncio sem espalhar surpresa, a não ser pelo girar dos motores, que, mais ruidosos, empurravam aqueles barcos em esforço para sulcar as águas até um pouco mais além.

 

   Chegados ao porto de destino, fixado o barco na posição e amarrado agora ao cais, o velho mestre apressava-se a disparar cumprimentos de despedida e votos de um dia bem passado, entre as areias calmas e os banhos daquele mar, que ele só poderia em cada viagem avistar ao longe. Aquelas pessoas que ele diariamente transportava, apesar de desconhecidas, significavam o seu ganha-pão, e era preciso manter um bom ânimo; depois, mesmo que sendo pobres estes trabalhadores e trabalhem no que não causa mediatismo, estas almas triunfam com a sua humildade e acreditam com fé terem pelo menos um dia o “prémio dos céus”.

 

   — Bom dia! Até à próxima, mestre! — despedia-se aquele viajante num tom familiar e com um largo sorriso já a comungar naquela mansidão.

 

   Entretanto, meio entretido nos seus pensamentos, começava a tatear o caminho que o levaria até à praia, mas o seu deslumbramento era de tal forma expectante que, parando de vez em quando, como se quisesse fazer meditação, refreava por instantes o ímpeto da arte fotográfica, para poder perscrutar na distância o horizonte que se erguia lá ao longe, pelo menos enquanto não se agitava no andar, para de modo mais intencional dirigir-se até à parte superior do areal que avistava e onde iria depois passar algumas horas do dia.

   Alcançado o lugar para colocar a sua roupa exterior e mais alguns apetrechos que levava consigo, preparava-se vestindo uns calções de banho, protegendo a pele da maior parte do corpo com um creme próprio e os olhos com uns óculos de sol apropriados para poder ver mais longe e deixar-se também tocar pelos raios solares na maior parte do seu corpo.

   Procurava encontrar um lugar na areia e na parte menos elevada, mas dentro de um raio de proteção dos seus haveres, quer pela possibilidade de visão entre ele e a distância das proximidades da borda do mar, quer sobretudo pela razão de, quando desejasse tomar banho ou desejasse aproximar-se simplesmente do mar para molhar os pés e para sentir o prazer da espuma deixada no fim de cada ondulação no areal, pudesse continuar a observar se tudo estava bem ou se, por uma razão inesperada da subida das águas, tivesse de os retirar para um lugar mais seguro.

   Nas primeiras horas da manhã, a praia ainda tinha pouca gente, e o litoral encontrava-se quase vazio. Alguns dos veraneantes gostavam de dormir até tarde, e outros preferiam a praia da parte da tarde, daí que era quase um hábito que mantinha regularmente, de, após pouco tempo depois de chegar à praia e alocar-se no lugar com os seus haveres, dirigir-se até às proximidades do mar e caminhar pela orla marítima num vaivém durante algum tempo, como se com estes gestos despertasse instantes de espírito, e na caminhada quisesse deixar profundas pegadas no chão, pois durante o seu percurso junto ao mar forçava a planta dos pés, e com os calcanhares cortava a areia até bem fundo, ao ponto de os pés mergulharem na superfície e perderem toda a sua nudez com a areia, que lhe cobria a brancura.

 

   Àquela hora, ainda um pouco matutina, o areal estava ainda fresco, e sobre as camadas mais finas ainda aspergiam em salpicos as gotas que as golfadas de água tinham deixado antes. Mergulhado na imensidão daquela natureza oceânica, sentava-se no chão a acariciar as conchas que, num colorido astral, o levavam até ao sonho de ver nas coisas simples os mistérios da Criação; em cada uma delas sabia que vivera um ser vivo e que num limite de tempo a rolar pelo espaço acabara por sofrer também as penas da transformação dos elementos do Universo.

   Entretanto, ainda a contemplar aquelas conchas vazias e mergulhado naquela meditação, fizera-se nele um silêncio quase cúmplice, pois, sem produzir palavra, interrogara-se:

   — Porquê isto, porque é que tudo se transforma, porque é que tudo tem de ser assim: princípio, meio e fim?

 

   Despedaçado nesta incompreensão e agarrado aos silêncios que o envolviam, sentira de repente, como caída do além a tanger a sua imaginação, uma mulher que, numa passada leve, se encaminhava ao encontro do mar. Levantara com elegância o seu olhar, tocara-lhe discretamente pela visão em todo o rosto e, sem pensar em nada que não fosse sonho, quase impercetível nos gestos do olhar, meditara no fascínio que os olhos daquela mulher despertara em si, pensando que aquele rosto de beleza estranha seria a expressão da vida na sua mais bela quietude.

 

   De repente, acordara de toda a angústia e inquietude própria da mudança, depois desprenderam-se em si as amarras da desilusão que lhe provocaram aquelas conchas belas e repletas de lindo colorido, conchas lindas, conchas muito lindas, mas inertes e vazias de vida e cheias de solidão. Por um instante, entre a recordação daquela aparição feminina, a sua imaginação voltara a encher-se de mistério, e o perdão da inocência dera-lhe de novo o élan de voltar a sentir-se capaz de viver com alegria em cada instante de espírito que lhe fosse próprio na sua existência.

 

 

Moments of Spirit

Macedo Teixeira

Without worry of time or rigid option of departure schedule from the little motor boats in the morning that made the fluvial transport of roundtrip by the river mouth, he headed for one of the determined places and entered the boat that went bound for the river landing port, as per passenger ticket, bought on the day before and the wish, after the disembarkation, that he may go to meet by land the sea beach chosen on each one of the days when he had stayed at that vast bathing area. Without an option, at least as rigid as that which he had to have when he intended to return in the afternoon, to arrive still in time to lunch within the hour until the limit lunch schedule allowed by the hotel.

Those places of embarkation and disembarkation at the river mouth port were those which in that terrestrial area were nearer the hotel where he stayed during the vacations that he had took there and that were also the places by indication from this hotel unit where were the authorized boats to the hotel’s responsibility which permitted the access to the tourists by the river mouth littoral to the several islands that constituted its parts and that among the course of a great fluvial extension one could enjoy in its natural terrestrial and fluvial beauties, which meanwhile separated it from the immensity of the sea, which one had in sight as long as we were approaching the port towards each one of the hidden islands.

Arrived there, after the boat stayed duly anchored and the people had been quickly aided by the crew, the passengers sought to get out with great attention and without pushing, especially those who went on accompanied by little children, chiefly with greater concern in the ascent of the ladder, which was sharply vertical and contained several flights until one reached the upper platform.

After the passage through the barriers of exit control of the river harbor, each person started a longer or shorter hike through the ways treated by the municipal services, although sandy and sided by some creeping vegetation wilder and intermingled with hill flowers lifted among the sands that earthed up forming bas-reliefs similar to dunes. Ways among the forest sided by trees and dwelling-houses, commercial firms and catering houses, which meanwhile supported every holiday-maker that passed by there, foreigners or nationals, and also embellished the natural space of those islands that separated the Atlantic Ocean from that so beautiful river mouth of calm and clean water, to head for the sandy area and for the seashore, chosen with the purchase of the ticket to that destination on each one of the holidays when they stayed there.

 

In spite of him knowing, as a passenger of that boat, after a short time, to be new on those travels and certainly temporary in that locality, it had begun to make between him and the boat crew some routine manifested in a happier feeling for traveling certainly more times on that boat and for revealing in his singularity of affections, which was characteristic in him, a more uncommon politeness in the general and friendly greeting to all the present ones, always with a greater relevance to the crew in the person of the boatswain.

After that, with a smile and in a flash gaze, he amused himself staring at the river mouth banks to, in a discrete gaze, apprehend also the faces of the other travel fellows, trying in a moment to meditate and discover, though momentarily, some signs of their states of soul in what perhaps concerned them more and which was the best moment on each one of those travels and on those holidays, which gradually were approaching the end to him.

 

After entering the boat, he sat down on one of the seats which meanwhile he found free, but always seeking in his choice to go to meet the liking and the pleasure for the photographic art, which he wished to feel on each one of the travels he made in the first hours of the morning and in the return in the first hours of the afternoon.

He kept, meanwhile like the others, the due attention to the safety instructions and to the compliance with the rules, putting a life-jacket and standing firm on the seat, at least while the boat was doing embarkment, departure and arrival maneuvers. Even so, there he was looking more intensely in the direction of the seats and the people and between the distance he reached by vision to, through the objective of his camera, find the right environment until the capture of the pictures to record at each moment.

Shooting the camera with even more insistence, he called with these movements the attention of the other travel fellows, inducing them by this way to also look to the different places and landscapes that they were sighting and that ended up revealing to them a greater fascination and also a greater interest.

In the meantime, between the enchantment of the places reached by the natural vision of each one and the flashes of light produced by the camera, which filled with light the environment on each photograph taken, also with these gestures he ended up arousing a great interest in the other travelers and, by this artistic mode, even though in silence, he invited them to contemplate the surrounding spaces, which were leaving behind in the water movements that produced a contemplative will of the beauty that includes the all on each moment, while it was recording selectively in each photograph the most beautiful pictures of the natural elements he was seeing while the boat was heading for the port of disembarkation.

 

Boats, people, landscapes, all this between the undulatory water movements that broke the silence without spreading surprise, except by the rotation of the motors, which, noisier, pushed those boats in effort to plow the waters a bit farther.

 

When we arrived at the port of destination, after the boat was fixed in the right position and moored to the wharf, the old boatswain hurried himself to shoot farewell greetings and wishes of a great day, among the calm sands and the dips of that sea, which he could only catch sight of by far on each travel. Those people who he daily carried, despite being unknown, meant his livelihood, and it was necessary to keep a good mood; then, even though these workers are poor and work on what does not cause media attention, these souls triumph with their humbleness and believe with faith that they will have one day the “Heavens’ prize”.

 

— Good morning! To the next, Mr. Boatswain! — said goodbye that traveler in a familiar tone and with a big smile already communing in that calmness.

 

Meanwhile, half entertained with his thoughts, he began to fumble the way that would lead him to the beach, but his fascination was so expectant that, stopping once in a while, as if he wanted to do meditation, he refrained for moments the impetus of the photographic art, so that he could scrutinize in the distance the horizon that rose far away from there, at least while he did not move about in the pace to, in a more intentional way, head for the superior part of the sandy area he sighted and where he would spend some hours of the day.

Reached the place to put his external clothes and some more accessories he carried with him, he prepared himself by dressing some swimming shorts, protecting the skin of the most part of the body with a proper cream and the eyes with a pair of appropriate sunglasses so that he could see farther and also let himself touch by the solar rays in the most part of his body.

He sought to find a place in the sand and in the least elevated part, but within a radius of protection of his belongings, whether because of the vision possibility between him and the distance of the surroundings of the sea bank or, above all, by the reason that, when he wished to swim or when he wished only to approach the sea to wet the feet and feel the pleasure of the foam left at the end of each undulation on the beach, he could continue to watch if everything was right or if, by some unexpected reason of the rise of the water, he had to take them away to a safer place.

In the first hours of the morning, the beach had only a few people, and the littoral was almost desert. Some of the vacationers liked to sleep until late, and others preferred the beach in the afternoon; hence that it was almost a habit he kept regularly, of, after a while after arriving at the beach and settling himself in the place with his belongings, to head towards the surroundings of the sea and to walk by the seafront in a to and fro for a while, as if with these gestures he awoke moments of spirit, and in the walk he wanted to leave deep footsteps on the ground, since during his way by the sea he forced the soles of the feet, and with the heels he cut the sand very deeply, to the point of the feet plunging in the surface and losing all their nakedness with the sand, which covered their whiteness.

 

By that hour, still a bit matutinal, the sandy area was still fresh, and over the thinner layers it still sprinkled in splashes the drops that the water gushes had left before. Sunk into the immensity of that oceanic nature, he sat on the ground fondling the shells which, in an astral coloring, took him to the dream of seeing in the simples things the mysteries of Creation; in each one of them he knew that had lived there a living being and that, in a time limit rolling through space, it had also suffered the sorrows of the transformation of the elements of the Universe.

Meanwhile, still contemplating those empty shells and sunk into that meditation, it had made in him an almost knowing silence, since, without producing a word, he had wondered:

— Why this, why everything transforms itself, why is it that everything must be like this: beginning, middle and end?

 

Torn in this incomprehension and caught to the silences that involved him, he had suddenly felt, as fallen from the beyond touching his imagination, a woman that, in light steps, headed for the sea. He had lifted up his look, had touched her discreetly through vision all of her face and, without thinking in anything but dream, almost imperceptible in the gestures of the look, he had meditated upon the fascination that the eyes of that woman had awaken in himself, thinking that that face of a strange beauty would be the expression of life in its most beautiful quietness.

 

Of a sudden, he had awaken from all the anguish and restlessness typical of the change, then broke loose the disillusionment moorings that provoked him those beautiful shells and replete with a lovely coloring, lovely shells, very lovely shells, but inert and empty of life and full of loneliness. For a moment, in the middle of the remembrance of that feminine apparition, his imagination filled itself again with mystery, and the forgiveness of innocence had given him again the élan of feeling himself capable again of living with joy at every moment of spirit that was characteristic in his existence.

 

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