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Quando as Estrelas Acordam (3) / When the Stars Awake (3)

13-09-2017 22:49

Quando as Estrelas Acordam (3)

 

    Desta primeira reflexão, sobre as substâncias, pode con­cluir-se que a Terra encerra mistérios incontáveis, mesmo nas riquezas já exploradas; possui formas e relevos que seguimos nos pensamentos e nos agarram nos picos e montanhas para se aproximarem do horizonte e ficarem mais perto de Deus. As formas físicas são os traços geométricos das hipóteses a con­cluir noutras formas ainda mais complexas. Neste deslum­bramento, o nosso pensamento agita-se em frenesim para elevar-se da fisicalidade dos montes e dos desfiladeiros até à dimensão estelar da Natureza, onde o nosso olhar se queda e as várias questões se levantam. Mais perplexa a sua origem, mas também a de todos os demais planetas e todos os ele­mentos do Universo. A Ciência descreve que a Terra formou­-se a partir de uma nuvem de poeiras e gás que vagueava no espaço. Os minerais densos concentraram-se na região central enquanto os menos densos constituíram uma delgada crosta rochosa. Contudo, as primeiras formas de vida conhecidas (bactérias e cianobactérias) apenas apareceram há cerca de 3.500 milhões de anos. Conhecendo-se plantas e animais mais complexos desde há 570 milhões de anos. A partir de então, surgiram milhares de espécies animais e vegetais. Algumas delas subsistem enquanto outras se extinguiram.

    Tal como as espécies que a habitam, a Terra encontra-se em permanente modificação: os continentes atingiram a sua localização actual há cerca de 50 milhões de anos, embora con­tinuem a deslocar-se lentamente na superfície do planeta. Os diversos fenómenos que se referem nesta pequena história podem explicar-se racionalmente, interpretar-se na relação de causa-efeito, mas o embelezamento que nos proporciona cada imagem que destas formas retiramos superará qualquer exame de laboratório para nos levar até uma quietude inexplicável.

    Ao contemplar, expressiva e dinamicamente a Terra, o nosso pensamento místico comunga com a alma e o corpo num resgate incondicional de qualquer prisão, obstáculo ou impedimento, para que assim tudo se liberte nas formas do nosso ser.

    Das hipóteses vamos acordando para as certezas possíveis e os traços geométricos vão identificando as ordens e trans­formações do espaço. Incontáveis são também as riquezas a explorar no desconhecido; qualquer sentido do pensar abre clareiras e desperta registos que a memória nos apelará para a sua decifração. Nestes segredos abre-se-nos uma inquietação que não sossega com as hipóteses nem certezas previamente captadas; se é possível alguma serenidade, esta é o resultado do encontro com as origens noutras partes e noutros lugares, um encontro com a nossa própria origem. São estas formas que se erguem às alturas ou descem às profundidades que em silêncio natural abrem os caminhos do pensar nas coisas, não apenas como objectos que nos servem nos modos mais elementares, mas sobretudo como elementos que participam num movimento que não acaba em cada mudança ou trans­formação. Sobretudo, como elementos que, arrancados à sua origem, nos deixam a impressão de que ficarão sós a gemer de dor até que uma outra função os torne significativos. Quando as estrelas acordam não nos deixam mais sem piedade nem indiferença; não nos deixam mais a existência sem companhia nem sem vontade de sermos relacionais e interactivos com a Humanidade e com a Natureza. São elas que, para um sujeito autor da arte, quando inspirado pela luz da criação, o inclinam a olhar e a registar cada forma e cada ser no seu modo de sentir e manifestar o sofrimento, quando arrancados do seu lugar e alterados na sua estrutura.

    O Universo respira por uma ordem constituída por ele­mentos que escapam a qualquer conta que se pretenda aca­bada; qualquer dos seus elementos faz parte de uma compo­sição que excede qualquer limite ou qualquer quantidade. É de crer que esta seja uma das razões que nos torna expec­tantes e nos motiva a imaginar o Mundo para além do que nos diz o determinismo universal: nada acontece na natureza sem que uma causa lhe dê origem. A imagem que vamos formando do Universo leva-nos para além do que o nosso pensamento causal propõe; não existem causas para tudo o que acontece. E se o Universo é infinito, nenhuma conta real o poderá quanti­ficar e as causas estão relacionadas com os fenómenos que são na maior parte das vezes realidades localizadas, embora estas estejam em conexão com outras realidades de uma sucessão infinita. Esta apetência para desvendar o Universo impele­-nos para a actividade de investigar para além das causas e das quantificações, justificando, deste modo, aquela que é uma das competências do nosso raciocínio: relacionar tudo aquilo sobre o qual se pensa, propondo e resolvendo as dificuldades que o desconhecido nos vai mostrando, admitindo sempre que as causas relacionam os factos, mas estes podem não se esgotar nas quantidades nem servir para todos os fenómenos, mesmo que sejam iguais. Sem este poder de pensar para além de todos os limites, não conheceríamos as leis nem seríamos capazes de atingir outras possibilidades ainda mais complexas. Tudo rela­cionamos e quantificamos; e só quando emergimos na abs­tracção das possibilidades e dos limites é que percebemos se temos de nos conter um pouco, já que algumas realidades se distendem para além do finito e da temporalidade, ele­vando-se até outra ordem pelos domínios da transcendência. Verificamos, deste modo, que algumas realidades se projectam numa idealidade dinâmica inatingível, em que a vida de cada elemento é a forma da sua essência infinita, mas mesmo assim, continuaremos a sonhar com a possibilidade de uma abs­tracção desta essência, ainda que seja infinita.

 

Macedo Teixeira, Quando as Estrelas Acordam, Sítio do Livro, Lisboa, Julho de 2014, pp. 13 a 16.

 

 

When the Stars Awake (3)

 

From this first reflection, about the substances, we may conclude that the Earth contains countless mysteries, even in the already explored richnesses; it possesses forms and reliefs that we follow in our thoughts and take hold of us on the peaks and mountains to come closer to the horizon and stay nearer to God. The physical forms are the geometric strokes of the hypotheses to conclude on other even more complex forms. Within this fascination, our thought frets in a frenzy to elevate itself above the physicality of the hills and gorges up to the stellar dimension of nature, where our glance stays and several questions are raised. More perplexed its origin, but also that of the rest of the planets and all elements of the Universe. Science describes that the Earth was formed from a cloud of dust and gas that wandered in space. The dense minerals concentrated themselves in the central region while the less dense ones constituted a thin rocky crust. However, the first known life forms (bacteria and cyanobacteria) only appeared about 3,500 million years ago. And more complex plants and animals from 570 million years ago are known. From then on, thousands of animal and vegetable species appeared. Some of them subsist, while others became extinct.

Like the species that inhabit it, the Earth is in permanent modification: the continents reached their current location about 50 million years ago, although they continue to move slowly on the surface of the planet. The several phenomena that are referred in this little story may be rationally explained, be interpreted in the cause-effect relation, but the embellishment that each picture we take from these forms gives us will surpass any laboratory test to take us to an unexplainable quietness.

By contemplating, expressively and dynamically, the Earth, our mystical thought communicates with our soul and body in an unconditional rescue from any prison, obstacle or impediment, so that everything is liberated in the forms of our being.

From the hypotheses we are awaking to the possible certainties, and the geometric strokes will identify the orders and transformations of space. Countless are also the richnesses to be explored in the unknown; any meaning of the thinking opens glades and evokes records that the memory will appeal to us to their deciphering. Within these secrets, we are opened an inquietude that does not calm down with the hypotheses nor with the certainties previously grasped; if it is possible some serenity, this is the result of the encounter with the origins in other parts and in other places, an encounter with our own origin. It is these forms that rise to the heights or descend to the deepnesses that in natural silence open the ways of the thinking about things, not only as objects that serve us in the more elementary ways, but above all as elements that participate in a movement that does not end in each change or transformation. Especially as elements that, taken off of their origin, leave us the impression that they will stay alone groaning with pain until another function renders them meaningful. When the stars awake, they do neither leave us anymore without pity nor indifference; they do neither leave to us the existence without company nor without will to be relational and interactive with nature. It is them that, to a subject author of art, when inspired by the light of creation, incline him or her to look and record each form and each being in their way of feeling and manifesting the suffering, when uprooted from their place and altered in their structure.

The universe breathes by an order constituted by elements that escape to any calculation pretended to be finished; any of its elements is part of a composition that exceeds any limit or any quantity. It is reasonable to think that this is one of the reasons that make us expectants and motivate us to imagine the world beyond what tells us the universal determinism: nothing happens in nature without a cause that originates it. The picture we are forming of the universe takes us beyond what our causal thought proposes; there are no causes for everything that happens. And if the universe if infinite, no real calculation can quantify it and the causes are related to the phenomena that are mostly localized realities, although these are in connection with other realities of an infinite succession.  This appetence for unraveling the universe impels us to the activity of investigating beyond the causes and quantification, justifying, thus, that which is one of the competences of our reasoning: to relate everything we think about, proposing and resolving the difficulties that the unknown is showing us, admitting always that the causes relate the facts, but these may not run out in the quantities nor serve to all phenomena, even if they are equal. Without this power of thinking beyond all limits, we would neither know the laws nor would be capable of reaching other even more complex possibilities. We relate and quantify everything; and only when we emerge in the abstraction of the possibilities and of the limits is when we understand if we have to contain ourselves a bit, since some realities spread beyond the finite and temporality, elevating themselves up to other order by the domains of transcendence. We verify, thus, that some realities project themselves in an unreachable dynamic ideality, in which the life of each element is the form of its infinite essence, but even so, we will continue to dream with the possibility of an abstraction of this essence, even if it is infinite.

 

Macedo Teixeira, When the Stars Awake, Sítio do Livro, Lisbon, July 2014, pages 13 to 16.

 

 

Quando as Estrelas Acordam (2) / When the Stars Awake (2)

23-08-2017 22:23

Quando as Estrelas Acordam (2)

 

    No final do século XVIII, vários investigadores estudaram a composição da água, descobrindo que um dos seus ele­mentos integrantes era o oxigénio. Em 1780, Henri Cavendish observou que, quando se efectuava a combustão de oxigénio e “ar combustível” (isto é, hidrogénio), em certas proporções, ocorria uma forte explosão. O mais notável, porém, era que no recipiente utilizado para a experiência apareciam gotinhas de água.

    O inglês Dalton, pai da moderna teoria atómica, estabe­leceu que uma molécula de água se compunha de um átomo de oxigénio e outro de hidrogénio. Mais tarde, o italiano Avogadro chegou à fórmula molecular correcta da água: dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio, que se expressa em linguagem simbólica pela conhecida fórmula H2O. Porém, a água não se compõe de um só tipo de moléculas. Os átomos de oxigénio, como os de hidrogénio, podem apresentar ligeiras diferenças entre si: diz-se que esses elementos têm isótopos diferentes. Um dos que aparecem no hidrogénio (entra em 0,01%) pesa o dobro que o próprio átomo de hidrogénio. Se a água o pos­suir, é mais pesada que a normal, recebendo o nome de água-pesada; não mata a sede e é frequentemente utilizada em tra­balhos de radioactividade. As moléculas da água têm também outra propriedade. As suas cargas eléctricas repartem-se nos extremos da molécula, de modo que um deles se torna positivo e o outro negativo. As moléculas são, pois, bipolares e por isso atraem-se, como se fossem pequenos ímãs. A esse tipo de união é chamado ponte de hidrogénio e dá origem a várias proprie­dades da água. Em pequena quantidade a água é incolor, mas em volumes maiores, em piscinas, por exemplo, aparece de cor azul esverdeada. Isto porque a água absorve as ondas amarelas e vermelhas do espectro (ondas largas), mas reflecte os raios azuis e verdes.

    As moléculas da água mantêm-se unidas graças às pontes de hidrogénio e esta substância permanece em forma líquida até aos 100 graus centígrados. Devido à união muito forte das moléculas, a água, para aumentar de temperatura, necessita de mais calor que quase todas as outras substâncias, mas porque o armazena melhor que estas, faz com que o nosso planeta seja habitável graças à grande capacidade calorífera da água. A que é aquecida no Equador dirige-se ao Norte e ao Sul, aquecendo as costas às quais chega.

    Quando enchemos um copo com água fresca, não imagi­namos que já tenha sido utilizada milhares de vezes. A quan­tidade de água que há no mundo é sempre a mesma: a que hoje corre através das condutas já existia há milhões de anos. O facto de que possamos utilizar várias vezes a mesma água é o resultado do seu percurso num ciclo constante na natu­reza. A água que se encontra à superfície da terra passa ao ar por meio da evaporação. Quando o vapor de água contido no ar alcança certa concentração, condensa-se e volta à terra em forma de precipitação. A fonte de energia para o ciclo da água é o Sol. Com efeito, o Sol liberta a energia exacta para que a água, ao evaporar, passe à atmosfera e possa voltar a cair sobre a terra [2].

    Tales de Mileto também tinha razão quando dizia que a água era fonte e princípio de vida. Nascemos dentro de uma tina de água (sendo a parte líquida superior à parte sólida do planeta) e não podemos viver sem ela, uma vez que é fonte e princípio de vida e é uma das principais substâncias para tornar habitável o nosso planeta.

    E assim se deseja que se mantenha. Na Idealidade que pro­ponho para viver, esta e outras substâncias devem ser utili­zadas e apreciadas em forma de contemplação e com a máxima sensibilidade pela sua importância na nossa sobrevivência.

 

Macedo Teixeira, Quando as Estrelas Acordam, Sítio do Livro, Lisboa, Julho de 2014, pp. 11 a 13.

 


[2] Enciclopédia Combi Visual (Grolier), Volume N.º 1, Temática “A Água”, páginas 1 a 3.

 

 

When the Stars Awake (2)

 

At the end of the XVIII century, several investigators studied the water composition, discovering that one of its integrating elements was oxygen. In 1780, Henri Cavendish observed that, when occurred the combustion of oxygen and “combustible air” (that is, hydrogen), in certain proportions, occurred a strong explosion. The most remarkable thing, however, was that in the recipient used for the experiment appeared little drops of water.

The English Dalton, father of the modern atomic theory, established that a water molecule was composed of an atom of oxygen and another of hydrogen. Later, the Italian Avogadro came to the correct molecular formula of water: two atoms of hydrogen and one of oxygen, which is expressed in symbolic language by the known formula H2O. However, water is not only composed of a single kind of molecules. Oxygen atoms, like the hydrogen ones, may present light differences between them: it is said that those elements have different isotopes. One of those that appear in hydrogen (integrates 0,01%) weights the double of the own atom of hydrogen. If water has it, it is heavier than the normal, receiving the name of heavy water; it does not quench the thirst and it is often used in works of radioactivity. The water molecules also have another property. Their electric charges are divided on the extremities of the molecule, so that one of them becomes positive and the other negative. Molecules are, thus, bipolar, and therefore attract each other, like if they were little magnets. That type of union is called hydrogen bridge and gives rise to several properties of water. In small amount, the water is colorless, but in greater volumes, in pools, for example, it appears as of greenish-blue color. This because the water absorbs the yellow and red waves of the specter (long waves), but it reflects the blue and green rays.

Water molecules keep themselves connected thanks to the hydrogen bridges, and this substance remains in liquid form up to 100 centigrade degrees. Due to this very strong connection of the molecules, water, to raise its temperature, needs more heat than almost every other substance, but because it stores it better than these, it makes our planet habitable thanks to the great heat capacity of water. That which is heated on the Equator heads to north and south, heating the shores it reaches.

When we fill a glass with fresh water, we do not imagine that it has already been utilized. The quantity of water there is in the world is always the same: that which runs through conduits already existed millions of years ago. The fact that we can utilize several times the same water is the result of its course in a constant cycle in nature. The water that is on the surface of the earth passes to the air by means of evaporation. When the vapor water contained in the air reaches a certain concentration, it condenses itself and comes back to earth in the form of precipitation. The energy source to the water cycle is the Sun. Indeed, the Sun liberates the exact energy so that water, when it evaporates, passes to the atmosphere and may fall again over the earth [2].

Thales of Miletus was also right when he said that water was source and principle of life. We are born from a tub of water (being the liquid part superior to the solid part of the planet) and we cannot live without it, since it is source and principle of life, and it is one of the main substances to render habitable our planet.

And it is desired that remains so. In the Ideality that I propose to live, this and other substances should be used and appreciated in the form of contemplation and with the maximum sensitivity because of its importance in our survival.

 

Macedo Teixeira, When the Stars Awake, Sítio do Livro, Lisbon, July 2014, pages 11 to 13.

 


[2] Visual Encyclopedia Combi (Grolier), Volume N.º 1, Theme “The Water”, pages 1 to 3.

 

 

Quando as Estrelas Acordam (1) / When the Stars Awake (1)

04-08-2017 19:14

Quando as Estrelas Acordam (1)

 

Nótula do Autor

 

    Quando as Estrelas Acordam surge como uma proposta de reflexão filosófico-cultural plasmada de raciocínios de con­teúdo diversificado nas áreas do conhecimento. É estruturada com algumas explicações científicas que lhe dão um sentido objectivo e porventura mais prático.

    O Fogo, a Água, a Terra, o Ar são elementos naturais que sempre despertaram no Homem a vontade de os conhecer melhor. Porém, o sentido da Idealidade como aspiração, que se pretende propor como forma possível para equação de algumas das dificuldades na vivência contemporânea, faz também emergir a necessidade do pensamento subjectivo que integra a realidade, conferindo-lhe uma dimensão estética, uma dimensão religiosa e alguma ficção.

    Por isso, esta proposta inclui na nossa existência a possi­bilidade das Estrelas, que guiam e iluminam a totalidade do Ser. Já não serão apenas a Alma e o Corpo as partes da coexis­tência da nossa vida, mas também as Estrelas terão um papel tão importante como aquelas na coesão, formação e desenvol­vimento da nossa humanidade.

    Assim, dadas as limitações dos ideais de Justiça, da Família, do Bem, da Verdade, do Amor, é-nos proposta uma interacção contextualizada em ambiente de integração geral de todos os elementos naturais e sociais. Esta interacção deve impelir-nos para o movimento da Idealidade, que permite o Absoluto, no qual será possível ser abstraída a mudança na Alma (ao nível da Razão/pensamento inteligível), no Corpo (ao nível dos Sentidos/sensibilidade das sensações), no Espírito (ao nível da Intuição/ no caminho da verdade e da vida).

    Este desenvolvimento e evolução ocorrem no despertar das Estrelas que guiam e iluminam a totalidade do Ser.

 

~~O~~

    Numa idade singular, um movimento tangencial toca em cada coisa como o ciciar do vento em escaninho percorre o espaço para se dissipar no som que deixa na lembrança ima­gens da eternidade. Toca em cada elemento de qualquer ordem e de qualquer origem com a leveza surda de exclamações sen­síveis e particularidades definidas. Toca em cada coisa, desper­tando um olhar contemplativo e livre, formando o momento em que a alma liberta uma temporalidade de disposições, também singulares e só instantaneamente lembradas no olhar de quem as retém.

    Quando as estrelas acordam, nesta idade singular, guiamo­-nos por dentro como sujeitos temporalmente físicos, sem racionalidade limitadora por um qualquer ideal nem esforço de intolerância pelo conhecimento do que nos falta para a compreensão plena de cada realidade ou acontecimento. Apenas deslumbramento, lembrança, memória, angústia, fim e desejo de estar ou de sair, de se ser outro e o mesmo, nesta impossibilidade de se ser nada nem de se ser tudo. Guiamo-nos por dentro, e cada passo e cada pensamento são espaços per­corridos pela memória e “lembrança” de que já ali estivé­ramos, porque a reminiscência e a semelhança não nos deixam ver qualquer limite de divisibilidade em cada lugar em que se guardam os registos da memória e as singularidades não têm referência, apelam-nos, mas não nos identificam. Quando as estrelas acordam, numa idade singular, seremos já compreen­sivelmente nós, num eu plural, ou ainda a dominar somente o nosso eu, se a comunhão da vida, do tempo e do crescimento, ainda não se estenderam plenamente até às comunidades do ser e do existir plenamente. Nesta idade singular, guiamo­-nos por dentro com uma plenitude ideal e uma força que é acção para a idealidade infinita. Uma idealidade que estará para além da medida das águas e das trapeiras que tranqui­lizam os olhares secos e expectantes da vida, que espera que os novos caudais percorram os sentidos estalados, para os encher e avivar, forçando de novo a erguerem-se os elementos natu­rais, pondo-os de pé, como se fossem braços que se erguem aos céus desta natureza distante. Desta natureza e num mundo onde já não será a chuva com os seus fios de água que per­turba ou acalma as mentes, que incita à espera pela aber­tura do tempo ou convida a ficarmos entre os recantos, numa entrega silenciosa a movimentos interiores para a composição de uma outra ordem qualquer. Mesmo quando esta enche demais os rios, encharca os campos, aumenta os lagos das bar­ragens e marca com mais severidade a distância e o receio pela imprevisibilidade da sua força. Ou quando, pelo poder do Sol, fica diminuída nos seus caudais, deixando secar os campos e as suas sementeiras, tornando-nos menos serena a sorte para ansiosamente a procurarmos em mergulhos e braçadas de liberdade até enchermos o nosso corpo com a sua própria vida. Agora, na experiência da Idealidade, a chuva tornar-se-á na água que se toca e se contempla, que, sendo mais que qualquer medida das suas gotas, subirá aos céus e descerá à Terra para regar os montes, as planícies e os desertos e para deixar-se levar pelas mãos do homem, até aos campos onde a verdura se mistura com o brilho da luz e se formam tonalidades estéticas num espectro ainda muito mais infinito. É nesta Idealidade que, agora, a água e outros elementos naturais, como o fogo, o ar, a terra, desejam, na vitalidade do ser regular, a vida em todos os mistérios, sem amargura e desalento, mas com a ter­nura de quem acorda sem limites de solidão e com o entu­siasmo para alcançar o que é mais profundo e mais oculto.

    Este pensamento de raiz analógica tem como finali­dade a reflexão filosófica sobre o Bem da Vida e o bem da água, que é fonte desta e, na oportunidade de evocarmos um conhecimento mais objectivo, torna-se interessante desen­volver um pouco mais a analogia pela necessidade de avaliar também este valor físico, pela sensibilidade e para além da sua materialidade.

    Para Tales de Mileto, que viveu entre os finais do século VII a.C. e começos do século VI a.C., a água era princípio mate­rial de tudo quanto existe [1]. A água cai do céu, emana da terra e enche os mares. O filósofo grego afirmava que o ar, o fogo e a terra tinham-se formado na substância água. De certo modo, Tales tinha razão: a água resulta da união de duas substâncias básicas – oxigénio e hidrogénio – sendo o ele­mento mais frequente no Universo.

 

Macedo Teixeira, Quando as Estrelas Acordam, Sítio do Livro, Lisboa, Julho de 2014, pp. 5 a 11.

 


[1] Logos Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, Volume N.º 5, página 15.

 




When the Stars Awake (1)



Author’s Short Note

 

When the Stars Awake appears as a philosophic-cultural proposal of reflection shaped by reasonings of diverse content within the areas of knowledge. It is structured with some scientific explanations that give it an objective and perhaps a more practical meaning.

Fire, Water, Earth, Air are natural elements that have always awoken in Man the will to know them better. However, the sense of Ideality as aspiration, which is intended to be proposed as a possible form to an equation of some of the difficulties in contemporary life, makes also emerge the necessity of the subjective thought that integrates reality, conferring it an aesthetical dimension, a religious dimension and some fiction.

Therefore, this proposal includes in our existence the possibility of the Stars, which guide and illuminate the totality of the Being. It will no longer be the Soul and the Body the parts of coexistence of our life, but also the Stars will have such an important role as those in cohesion, formation and development of our humanity.

Thus, given the limitations of the ideals of Justice, Family, Good, Truth, Love, it is proposed to us a contextualized interaction in an environment of general integration of all natural and social elements. This interaction should impel us to the movement of Ideality, which allows the Absolute, in which it will be possible to be abstracted the change in the Soul (at the level of Reason/intelligible thought), in the Body (at the level of the senses/sensitivity of sensations), in the Spirit (at the level of Intuition/on the way of truth and life).

This development and evolution occur in the awakening of the Stars that guide and illuminate the totality of the Being.

 

~~O~~

In a singular age, a tangential movement touches each thing like the whisper of wind in a hiding place covers the space to dissipate itself in the sound that leaves in the remembrance pictures of eternity. It touches each element of any order and of any origin with the deaf lightness of sensitive exclamations and defined particularities. Touches each thing, awakening a contemplative and free look, forming the moment at which the soul liberates a temporality of dispositions, also singular and only instantly remembered in the look of who keeps them in mind.

When the stars awake, in this singular age, we guide ourselves from within as temporally physical beings, without a limiting rationality by any ideal nor effort of intolerance by the knowledge of what lacks to us to the full comprehension of each reality or happening. Only fascination, remembrance, memory, anguish, end and desire of staying or leaving, of being another and the same, in this impossibility of neither being nothing nor being everything. We guide ourselves from within, and each step and each thought are spaces covered by the memory and the “remembrance” that we had once been there, because the reminiscence and the similarity do not let us see any limit of divisibility in each place in which the memory records are kept and the singularities do not have reference, appeal to us, but do not identify us. When the stars awake, in a singular age, we will already be understandably us, in a plural I, or still dominating solely our I, if the communion of life, of time and of growth are not yet fully extended to the communities of fully being and existing. In this singular age, we guide ourselves from within with an ideal plenitude and a strength that is action to the infinite ideality. An ideality that will be beyond the measure of the water and of the skylights that tranquilize the dry and expectant looks of life, which expects that new streams cover the cracked senses, to fill and sharpen them, forcing again the natural elements to raise themselves, making them stand up, as if they were arms that are raised to the skies of this distant nature. Of this nature and in a world where it will no longer be the rain with its water trickles that disturbs or calms the minds down, that incite to the wait for the opening of the weather or invites to stay between the corners, in a silent delivery to inner movements to the composition of any other order. Even when it fills the rivers too much, swamps the fields, enlarges the dams’ lakes and marks with more severity the distance and the fear because of the unpredictability of its strength. Or when, by the power of the Sun, it gets diminished in their flows, letting the fields and their cultivations dry up, rendering us less serene the luck to anxiously look for it in dives and swimming strokes of freedom until we fill our body with its own life. Now, in the experience of Ideality, the rain will become the water that touches and contemplates itself, which, being more than any measure of its drops, will go up to the skies and will come down to Earth to water the hills, the plains and the deserts and to let itself go by the hands of man, to the fields where greenness mixes itself with the brightness of light and aesthetical hues are formed in a specter even more infinite. It is within this Ideality that, now, water and other natural elements, like fire, air, earth, desire, in the vitality of the regular being, life in all its mysteries, without acrimony and discouragement, but with the tenderness of who awakes without limits of loneliness and with the enthusiasm to achieve what is more profound and more mysterious.

This thought of analogical root has the purpose of philosophical reflection about the Good of Life and the good of water, which is source of it and, in the opportunity of we evoking a more objective knowledge, it becomes interesting to develop a bit further the analogy by the necessity of evaluating also this physical value, by the sensitivity and beyond its materiality.

For Thales of Miletus, who lived between the endings of the 7th century BC and the beginnings of 6th century BC, water was the material principle of everything that exists [1]. Water falls from the sky, emanates from earth and fills the seas. The Greek philosopher stated that air, fire and earth had been formed in the substance water. In a certain way, Thales was right: water results from the union of two basic substances – oxygen and hydrogen – being the more frequent element in the Universe.


Macedo Teixeira, When the Stars Awake, Sítio do Livro, Lisbon, July 2014, pages 5 to 11.



[1] Logos Luso-Brazilian Encyclopedia of Philosophy, Volume N.º 5, page 15.

 

 

 

Instantes de Espírito / Moments of Spirit

07-07-2017 17:28

Instantes de Espírito

Macedo Teixeira

    Sem preocupação de tempo, nem opção rígida de horário de partida dos pequenos barcos a motor da parte da manhã que faziam o transporte fluvial de ida e volta pela ria, dirigia-se a um dos locais determinados e entrava no barco que seguia com destino ao porto fluvial de desembarque, conforme o bilhete de passagem, comprado no dia anterior e o desejo de após o desembarque poder ir ao encontro por terra da praia marítima escolhida em cada um dos dias em que se alojara naquela vasta zona balnear. Sem uma opção, pelo menos tão rígida como aquela que tinha de ter quando pretendia regressar à tarde, para chegar ainda a tempo de poder almoçar dentro da hora até ao horário-limite de almoço permitido pelo hotel.

   Aqueles locais de embarque e desembarque no porto da ria eram os que naquela zona terrestre ficavam mais próximos do hotel onde se alojara durante os dias de férias que por ali passara e eram também os locais por indicação desta unidade hoteleira onde se encontravam os barcos autorizados à responsabilidade do hotel que permitiam o acesso dos turistas pelo litoral da ria até às várias ilhas que constituíam as suas partes e que entre o percurso de uma grande extensão fluvial se poderia apreciar nas suas belezas naturais terrestre e fluvial, que entretanto a separavam da imensidão do mar, que se avistava ao longe à medida que nos íamos aproximando do porto em direção a cada uma das ilhas escolhidas.

   Chegados aí, depois de o barco ficar devidamente ancorado e as pessoas serem rapidamente amparadas pelo pessoal de bordo, os passageiros procuravam sair com grande atenção e sem atropelo, especialmente aqueles que seguiam acompanhados de crianças mais pequenas, sobretudo com maior preocupação na subida da escada, que era acentuadamente vertical e continha vários lanços até se chegar à plataforma superior.

   Depois da passagem pelas barreiras de controlo de saída do porto fluvial, cada pessoa iniciava uma caminhada maior ou menor pelos caminhos tratados pelos serviços municipais, embora arenosos e ladeados de alguma vegetação rasteira mais agreste e entremeada com flores do monte erguidas entre as areias que se amontoavam formando baixos-relevos semelhantes a dunas. Caminhos entre a floresta ladeados de árvores e casas de habitação, de comércio e de restauração, que entretanto serviam de apoio a todos os veraneantes que por ali passavam, estrangeiros ou nacionais, e embelezavam também o espaço natural daquelas ilhas que separavam o oceano Atlântico daquela parte tão linda daquela ria de águas mansas e limpas, para se dirigirem ao encontro do areal e da praia marítima, escolhida com a compra do bilhete para aquele destino em cada um dos dias de férias em que por lá permaneciam.

 

   Apesar de saber-se, como passageiro daquele barco, ao cabo de pouco tempo, ser novo naquelas viagens e certamente temporário naquela localidade, começara a fazer-se entre si e a tripulação do barco alguma rotina manifestada num sentimento alegre mais notado por viajar certamente mais vezes naquele barco e revelar na sua singularidade de afetos, que lhe era característica, uma delicadeza mais incomum no cumprimento geral e amistoso a todos os presentes, sempre com maior relevância à tripulação na pessoa do mestre da embarcação.

   De seguida, com um sorriso e num olhar-relâmpago, entretinha-se a fixar as margens da ria para, entre um olhar discreto, apreender também os rostos dos outros companheiros de viagem, tentando num instante meditar e descobrir, ainda que momentaneamente, alguns sinais dos seus estados de alma naquilo que porventura mais os preocupava e qual o melhor momento em cada uma daquelas viagens e naqueles dias de férias, que aos poucos para ele se iam aproximando do fim.

 

   Depois de entrar na embarcação, sentava-se num dos lugares que entretanto encontrava desocupado, mas procurando sempre na sua escolha ir ao encontro do gosto e do prazer pela arte fotográfica, que desejava sentir em cada uma das viagens que realizava nas primeiras horas da manhã e no regresso nas primeiras horas da tarde.

   Mantinha, entretanto como os demais, a devida atenção às instruções de segurança e ao cumprimento das regras, colocando um colete salva-vidas e mantendo-se firme no lugar, pelo menos enquanto o barco se encontrava a fazer manobras de embarque, de partida e de chegada. Mesmo assim, lá ia olhando mais intensamente na direção dos lugares e das pessoas e entre a distância que alcançava pela visão para, através da objetiva da sua máquina fotográfica, encontrar o ambiente próprio até à captação das imagens a fixar em cada momento.

   Disparando a máquina cada vez com maior insistência, chamava com estes movimentos a atenção dos outros companheiros de viagem, induzindo-os através deste modo a olharem também para os diferentes lugares e paisagens que iam avistando e lhes acabavam por revelar maior fascínio e também maior interesse.

   Entretanto, entre o encanto dos lugares alcançados pela visão natural de cada um e os flashes de luz produzidos pela máquina, que enchiam de luz o ambiente em cada fotografia tirada, também com estes gestos acabava por despertar maior interesse nos outros viajantes e, com este modo artístico, ainda que em silêncio, convidava-os a contemplar os espaços envolventes, que iam ficando para trás nos movimentos das águas que produziam uma vontade contemplativa da beleza que encerra o todo em cada momento, enquanto este ia registando seletivamente em cada fotografia as imagens mais belas dos elementos naturais que ia vendo enquanto o barco se dirigia até ao porto de desembarque.

 

   Barcos, pessoas, paisagens, tudo isto entre os movimentos ondulatórios da água que quebravam o silêncio sem espalhar surpresa, a não ser pelo girar dos motores, que, mais ruidosos, empurravam aqueles barcos em esforço para sulcar as águas até um pouco mais além.

 

   Chegados ao porto de destino, fixado o barco na posição e amarrado agora ao cais, o velho mestre apressava-se a disparar cumprimentos de despedida e votos de um dia bem passado, entre as areias calmas e os banhos daquele mar, que ele só poderia em cada viagem avistar ao longe. Aquelas pessoas que ele diariamente transportava, apesar de desconhecidas, significavam o seu ganha-pão, e era preciso manter um bom ânimo; depois, mesmo que sendo pobres estes trabalhadores e trabalhem no que não causa mediatismo, estas almas triunfam com a sua humildade e acreditam com fé terem pelo menos um dia o “prémio dos céus”.

 

   — Bom dia! Até à próxima, mestre! — despedia-se aquele viajante num tom familiar e com um largo sorriso já a comungar naquela mansidão.

 

   Entretanto, meio entretido nos seus pensamentos, começava a tatear o caminho que o levaria até à praia, mas o seu deslumbramento era de tal forma expectante que, parando de vez em quando, como se quisesse fazer meditação, refreava por instantes o ímpeto da arte fotográfica, para poder perscrutar na distância o horizonte que se erguia lá ao longe, pelo menos enquanto não se agitava no andar, para de modo mais intencional dirigir-se até à parte superior do areal que avistava e onde iria depois passar algumas horas do dia.

   Alcançado o lugar para colocar a sua roupa exterior e mais alguns apetrechos que levava consigo, preparava-se vestindo uns calções de banho, protegendo a pele da maior parte do corpo com um creme próprio e os olhos com uns óculos de sol apropriados para poder ver mais longe e deixar-se também tocar pelos raios solares na maior parte do seu corpo.

   Procurava encontrar um lugar na areia e na parte menos elevada, mas dentro de um raio de proteção dos seus haveres, quer pela possibilidade de visão entre ele e a distância das proximidades da borda do mar, quer sobretudo pela razão de, quando desejasse tomar banho ou desejasse aproximar-se simplesmente do mar para molhar os pés e para sentir o prazer da espuma deixada no fim de cada ondulação no areal, pudesse continuar a observar se tudo estava bem ou se, por uma razão inesperada da subida das águas, tivesse de os retirar para um lugar mais seguro.

   Nas primeiras horas da manhã, a praia ainda tinha pouca gente, e o litoral encontrava-se quase vazio. Alguns dos veraneantes gostavam de dormir até tarde, e outros preferiam a praia da parte da tarde, daí que era quase um hábito que mantinha regularmente, de, após pouco tempo depois de chegar à praia e alocar-se no lugar com os seus haveres, dirigir-se até às proximidades do mar e caminhar pela orla marítima num vaivém durante algum tempo, como se com estes gestos despertasse instantes de espírito, e na caminhada quisesse deixar profundas pegadas no chão, pois durante o seu percurso junto ao mar forçava a planta dos pés, e com os calcanhares cortava a areia até bem fundo, ao ponto de os pés mergulharem na superfície e perderem toda a sua nudez com a areia, que lhe cobria a brancura.

 

   Àquela hora, ainda um pouco matutina, o areal estava ainda fresco, e sobre as camadas mais finas ainda aspergiam em salpicos as gotas que as golfadas de água tinham deixado antes. Mergulhado na imensidão daquela natureza oceânica, sentava-se no chão a acariciar as conchas que, num colorido astral, o levavam até ao sonho de ver nas coisas simples os mistérios da Criação; em cada uma delas sabia que vivera um ser vivo e que num limite de tempo a rolar pelo espaço acabara por sofrer também as penas da transformação dos elementos do Universo.

   Entretanto, ainda a contemplar aquelas conchas vazias e mergulhado naquela meditação, fizera-se nele um silêncio quase cúmplice, pois, sem produzir palavra, interrogara-se:

   — Porquê isto, porque é que tudo se transforma, porque é que tudo tem de ser assim: princípio, meio e fim?

 

   Despedaçado nesta incompreensão e agarrado aos silêncios que o envolviam, sentira de repente, como caída do além a tanger a sua imaginação, uma mulher que, numa passada leve, se encaminhava ao encontro do mar. Levantara com elegância o seu olhar, tocara-lhe discretamente pela visão em todo o rosto e, sem pensar em nada que não fosse sonho, quase impercetível nos gestos do olhar, meditara no fascínio que os olhos daquela mulher despertara em si, pensando que aquele rosto de beleza estranha seria a expressão da vida na sua mais bela quietude.

 

   De repente, acordara de toda a angústia e inquietude própria da mudança, depois desprenderam-se em si as amarras da desilusão que lhe provocaram aquelas conchas belas e repletas de lindo colorido, conchas lindas, conchas muito lindas, mas inertes e vazias de vida e cheias de solidão. Por um instante, entre a recordação daquela aparição feminina, a sua imaginação voltara a encher-se de mistério, e o perdão da inocência dera-lhe de novo o élan de voltar a sentir-se capaz de viver com alegria em cada instante de espírito que lhe fosse próprio na sua existência.

 

 

Moments of Spirit

Macedo Teixeira

Without worry of time or rigid option of departure schedule from the little motor boats in the morning that made the fluvial transport of roundtrip by the river mouth, he headed for one of the determined places and entered the boat that went bound for the river landing port, as per passenger ticket, bought on the day before and the wish, after the disembarkation, that he may go to meet by land the sea beach chosen on each one of the days when he had stayed at that vast bathing area. Without an option, at least as rigid as that which he had to have when he intended to return in the afternoon, to arrive still in time to lunch within the hour until the limit lunch schedule allowed by the hotel.

Those places of embarkation and disembarkation at the river mouth port were those which in that terrestrial area were nearer the hotel where he stayed during the vacations that he had took there and that were also the places by indication from this hotel unit where were the authorized boats to the hotel’s responsibility which permitted the access to the tourists by the river mouth littoral to the several islands that constituted its parts and that among the course of a great fluvial extension one could enjoy in its natural terrestrial and fluvial beauties, which meanwhile separated it from the immensity of the sea, which one had in sight as long as we were approaching the port towards each one of the hidden islands.

Arrived there, after the boat stayed duly anchored and the people had been quickly aided by the crew, the passengers sought to get out with great attention and without pushing, especially those who went on accompanied by little children, chiefly with greater concern in the ascent of the ladder, which was sharply vertical and contained several flights until one reached the upper platform.

After the passage through the barriers of exit control of the river harbor, each person started a longer or shorter hike through the ways treated by the municipal services, although sandy and sided by some creeping vegetation wilder and intermingled with hill flowers lifted among the sands that earthed up forming bas-reliefs similar to dunes. Ways among the forest sided by trees and dwelling-houses, commercial firms and catering houses, which meanwhile supported every holiday-maker that passed by there, foreigners or nationals, and also embellished the natural space of those islands that separated the Atlantic Ocean from that so beautiful river mouth of calm and clean water, to head for the sandy area and for the seashore, chosen with the purchase of the ticket to that destination on each one of the holidays when they stayed there.

 

In spite of him knowing, as a passenger of that boat, after a short time, to be new on those travels and certainly temporary in that locality, it had begun to make between him and the boat crew some routine manifested in a happier feeling for traveling certainly more times on that boat and for revealing in his singularity of affections, which was characteristic in him, a more uncommon politeness in the general and friendly greeting to all the present ones, always with a greater relevance to the crew in the person of the boatswain.

After that, with a smile and in a flash gaze, he amused himself staring at the river mouth banks to, in a discrete gaze, apprehend also the faces of the other travel fellows, trying in a moment to meditate and discover, though momentarily, some signs of their states of soul in what perhaps concerned them more and which was the best moment on each one of those travels and on those holidays, which gradually were approaching the end to him.

 

After entering the boat, he sat down on one of the seats which meanwhile he found free, but always seeking in his choice to go to meet the liking and the pleasure for the photographic art, which he wished to feel on each one of the travels he made in the first hours of the morning and in the return in the first hours of the afternoon.

He kept, meanwhile like the others, the due attention to the safety instructions and to the compliance with the rules, putting a life-jacket and standing firm on the seat, at least while the boat was doing embarkment, departure and arrival maneuvers. Even so, there he was looking more intensely in the direction of the seats and the people and between the distance he reached by vision to, through the objective of his camera, find the right environment until the capture of the pictures to record at each moment.

Shooting the camera with even more insistence, he called with these movements the attention of the other travel fellows, inducing them by this way to also look to the different places and landscapes that they were sighting and that ended up revealing to them a greater fascination and also a greater interest.

In the meantime, between the enchantment of the places reached by the natural vision of each one and the flashes of light produced by the camera, which filled with light the environment on each photograph taken, also with these gestures he ended up arousing a great interest in the other travelers and, by this artistic mode, even though in silence, he invited them to contemplate the surrounding spaces, which were leaving behind in the water movements that produced a contemplative will of the beauty that includes the all on each moment, while it was recording selectively in each photograph the most beautiful pictures of the natural elements he was seeing while the boat was heading for the port of disembarkation.

 

Boats, people, landscapes, all this between the undulatory water movements that broke the silence without spreading surprise, except by the rotation of the motors, which, noisier, pushed those boats in effort to plow the waters a bit farther.

 

When we arrived at the port of destination, after the boat was fixed in the right position and moored to the wharf, the old boatswain hurried himself to shoot farewell greetings and wishes of a great day, among the calm sands and the dips of that sea, which he could only catch sight of by far on each travel. Those people who he daily carried, despite being unknown, meant his livelihood, and it was necessary to keep a good mood; then, even though these workers are poor and work on what does not cause media attention, these souls triumph with their humbleness and believe with faith that they will have one day the “Heavens’ prize”.

 

— Good morning! To the next, Mr. Boatswain! — said goodbye that traveler in a familiar tone and with a big smile already communing in that calmness.

 

Meanwhile, half entertained with his thoughts, he began to fumble the way that would lead him to the beach, but his fascination was so expectant that, stopping once in a while, as if he wanted to do meditation, he refrained for moments the impetus of the photographic art, so that he could scrutinize in the distance the horizon that rose far away from there, at least while he did not move about in the pace to, in a more intentional way, head for the superior part of the sandy area he sighted and where he would spend some hours of the day.

Reached the place to put his external clothes and some more accessories he carried with him, he prepared himself by dressing some swimming shorts, protecting the skin of the most part of the body with a proper cream and the eyes with a pair of appropriate sunglasses so that he could see farther and also let himself touch by the solar rays in the most part of his body.

He sought to find a place in the sand and in the least elevated part, but within a radius of protection of his belongings, whether because of the vision possibility between him and the distance of the surroundings of the sea bank or, above all, by the reason that, when he wished to swim or when he wished only to approach the sea to wet the feet and feel the pleasure of the foam left at the end of each undulation on the beach, he could continue to watch if everything was right or if, by some unexpected reason of the rise of the water, he had to take them away to a safer place.

In the first hours of the morning, the beach had only a few people, and the littoral was almost desert. Some of the vacationers liked to sleep until late, and others preferred the beach in the afternoon; hence that it was almost a habit he kept regularly, of, after a while after arriving at the beach and settling himself in the place with his belongings, to head towards the surroundings of the sea and to walk by the seafront in a to and fro for a while, as if with these gestures he awoke moments of spirit, and in the walk he wanted to leave deep footsteps on the ground, since during his way by the sea he forced the soles of the feet, and with the heels he cut the sand very deeply, to the point of the feet plunging in the surface and losing all their nakedness with the sand, which covered their whiteness.

 

By that hour, still a bit matutinal, the sandy area was still fresh, and over the thinner layers it still sprinkled in splashes the drops that the water gushes had left before. Sunk into the immensity of that oceanic nature, he sat on the ground fondling the shells which, in an astral coloring, took him to the dream of seeing in the simples things the mysteries of Creation; in each one of them he knew that had lived there a living being and that, in a time limit rolling through space, it had also suffered the sorrows of the transformation of the elements of the Universe.

Meanwhile, still contemplating those empty shells and sunk into that meditation, it had made in him an almost knowing silence, since, without producing a word, he had wondered:

— Why this, why everything transforms itself, why is it that everything must be like this: beginning, middle and end?

 

Torn in this incomprehension and caught to the silences that involved him, he had suddenly felt, as fallen from the beyond touching his imagination, a woman that, in light steps, headed for the sea. He had lifted up his look, had touched her discreetly through vision all of her face and, without thinking in anything but dream, almost imperceptible in the gestures of the look, he had meditated upon the fascination that the eyes of that woman had awaken in himself, thinking that that face of a strange beauty would be the expression of life in its most beautiful quietness.

 

Of a sudden, he had awaken from all the anguish and restlessness typical of the change, then broke loose the disillusionment moorings that provoked him those beautiful shells and replete with a lovely coloring, lovely shells, very lovely shells, but inert and empty of life and full of loneliness. For a moment, in the middle of the remembrance of that feminine apparition, his imagination filled itself again with mystery, and the forgiveness of innocence had given him again the élan of feeling himself capable again of living with joy at every moment of spirit that was characteristic in his existence.

 

Laços de Ternura / Bonds of Tenderness

09-06-2017 18:24

Laços de Ternura

 

Deixa-me agora tratar-te simplesmente por tu;

é assim, neste amor, que também os teus netos me tratam!

Não será pior, penso eu, que também amarás como se fosses tu...

Nós somos os mesmos; o tempo e as circunstâncias é que datam!...

 

Sabes? Passeando até ao lugar das nossas raízes,

vi um sonho que escorria para a terra.

Vi os rios, os vinhedos, as oliveiras e algumas serras,

e, em silêncio, recordei os nossos dias felizes.

 

Entretanto, naquele lugar, entre o amor e a alegria,

olhando a observar as pessoas, vi-as também numa correria!

De repente, uma música enterneceu-me e levantou um véu!

 

Mas num instante, recobrei as forças e também a paz!

E a contemplar a extensão do Vale, pareceu-me ouvir-te a dizer: “É o meu rapaz!”

Sim, demorei muito tempo, mas não foi fácil fazer isto de seu como tu:

pôr na cabeça um chapéu, passar a ser eu também a lembrar-me em seres tu.

 

Macedo Teixeira, Julho de 2016.

 

 

Bonds of Terderness

 

Let me now just treat you by “you”;

it is like that, in this love, that your grandchildren also treat me!

It will not be worse, I think, that you may also love as if were you...

We are the same; it is the time and circumstances that date!...

 

You know? Strolling to the place of our roots,

I saw a dream that was dripping to earth.

I saw the rivers, the large vineyards, the olive-trees and some mountains,

and, in silence, I remembered our happy days.

 

Meanwhile, in that place, between love and joy,

looking to observe the people, I also saw them in a hurry!

Suddenly, a music touched me and lifted a veil!

 

But, in an instant, I recovered my strengths and also peace!

And contemplating the Valley extension, it seemed to me to have heard you saying: “It’s my boy!”

Yes, I took very long, but it was not easy to do this of his like you:

to put a hat on the head, to start being me also remembering of being you.

 

Macedo Teixeira, July 2016.

 

I Simpósio Internacional de Educação e Pedagogia “Paz e Cidadania Global”, na década internacional consagrada pela ONU (2013-2022)

02-06-2017 17:56

I Simpósio Internacional de Educação e Pedagogia “Paz e Cidadania Global”, na década internacional consagrada pela ONU (2013-2022)

 

É com enorme satisfação que publicamos um resumo da tese “Nos Caminhos do Ser Humano”, apresentada na Universidade Aberta, o certificado de participação na conferência e um pequeno vídeo da sala onde foi apresentada.
Se pretenderem conhecer integralmente as teses internacionais apresentadas e publicadas posteriormente em livro, consultar Redipe (Rede Ibero-Americana de Pedagogia) ou a Universidade Aberta (Lisboa):

 

plus.google.com/105665048293484093240/posts/Lo5otEegSqy


Basta clicar no link acima para aceder ao certificado, ao resumo da tese e ao vídeo.

Obrigado pela compreensão de termos de usar tantas ferramentas para proteger as comunicações.
Macedo Teixeira, António

 

Estrela do Mar / Star of the Sea

04-05-2017 17:43

Estrela do Mar

 

Quando eu era pequenino,

ouvia sem perceber

súplicas elevadas aos Céus,

mulheres falando a correr

 

Lavavam em água corrente,

batiam na pedra agitadas,

destorciam a roupa enroscada,

com fé a agradecer

 

Nossa Senhora Bendita

nos acuda nos trabalhos,

que até a ganharmos o pão

podemos cair em atalhos

 

“Que mal pode vir, mulher?”,

perguntava a Rosa do lado.

Em coro gritavam as outras:

“Sempre existe o mau-olhado!”

 

Voltava a Maria Amélia:

“Mas é preciso ter fé!...”

Respondendo de rajada:

“Quem mataram em Nazaré?

 

“Não foi um Homem Bendito?

Fez bem e recebeu o mal!...

Por isso, nossa amiga Rosa,

em nós pode ser igual”

 

“Vocês têm muita razão”,

lamentava a São em desdita,

“Por não prestar atenção,

anda a minha alma aflita

 

“Meu filho vai para a Guerra,

meu homem está muito doente,

antes eu gritava aos quatro ventos:

‘Sou forte, e não sou crente!...’

 

“Agora de alma perdida,

choro os dias na escuridão.

Nossa Senhora Bendita

me socorra, me dê a mão!...”

 

“Em tua alma arrependida,

a Bendita te dará o perdão,

e não demorará muito tempo

a sentires no coração

 

“Teu esposo ficará bom,

teu filho virá a são e salvo.

Com Fé, Luz e Coragem,

jamais perderás o teu pão!...”

 

Nossa Senhora Bendita

nos acuda nos trabalhos,

que até a ganharmos o pão

podemos cair em atalhos

 

Sei que já lá vamos no fim,

entre a última carruagem.

Não deixes andar o comboio;

faz connosco a viagem

 

Alguns já mal Te escutam,

estão perdidos na ilusão.

Senhora, faz com que vejam

a tatear na escuridão

 

Nossa Senhora Bendita

nos acuda nos trabalhos,

que até a ganharmos o pão

podemos cair em atalhos.

 

Macedo Teixeira, Fevereiro de 2017.

 

 

Star of the Sea

 

When I was a little boy,

I listened without understanding

to pleas elevated to the Heavens,

women speaking in a hurry

 

They washed in running water,

they stroke on stone agitated,

they straightened the twisted clothes,

with faith thanking

 

Our Blessed Lady

come to rescue in the works,

because even when we earn our bread

we may fall into obstacles

 

“What evil may come, woman?”,

asked Rose on the side.

In chorus shouted the others:

“There is always evil eye!”

 

It turned Maria Amélia:

“But it’s necessary to have faith!...”

Answering right away:

“Whom they killed in Nazareth?

 

“Wasn’t He a Blessed Man?

He did good and received evil!...

Therefore, our friend Rose,

with us it may be equal”

 

“You are very right”,

lamented São with unhappiness,

“For not paying attention,

my soul is troubled

 

“My son goes to War,

my man is very sick,

before I shouted to the four winds:

‘I’m strong, and I’m not a believer!...’

 

“Now with a lost soul,

I cry every day in darkness.

Our Blessed Lady,

help me, give me your hand!...”

 

“In your repentant soul,

the Blessed One will give you forgiveness,

and it won’t take much long

until you feel her in the heart

 

“Your husband will get well,

your son will come safe and sound.

With Faith, Light and Courage,

you will never lose your bread!...”

 

Our Blessed Lady

come to rescue in the works,

because even when we earn our bread

we may fall into obstacles

 

I know that we already go in the end,

between the last wagon.

Don’t let the train move;

make the journey with us

 

Some barely listen to You,

they are lost in illusion.

Lady, make them see

groping in darkness

 

Our Blessed Lady

come to rescue in the works,

because even when we earn our bread

we may fall into obstacles.

 

Macedo Teixeira, February 2017.

 

Geometria Pendular / Pendular Geometry

11-04-2017 17:50

Geometria Pendular

 

É a hora de ir prà escola;

temos pressa pra chegar.

Toca lesta a campainha.

Trrim! Trrim! “Vamos entrar!”

 

Olha a fitar em silêncio

os gestos de cada um.

Bate com as mãos na carteira.

“Meninos, não falta nenhum!!!”

 

Ainda a girar com emoção,

vai até ao quadro a falar:

“Triângulo, retângulo, hipotenusa!

Aqui está o giz, vamos começar?!”

 

“João, vem depressa ao quadro!

Figura um triângulo equilátero,

depois um triângulo retângulo,

para chegarmos até ao quatro!”

 

“E você, menino, aí!...

Que espera pra começar?

Levante a cabeça prà frente;

Já são horas de acordar!”

 

Pedro, sem embaraço, vai subindo na eclusa;

sobe até ao mais alto do quadro,

pegando na régua e esquadro

para traçar uma hipotenusa.

 

“Que pena, menino João,

que nem isto saiba fazer!

O ano já está a findar,

e o menino sem aprender!...”

 

Entretanto em tarde confusa,

bate com força  o apagador;

espalha raios brancos de pó

e mancha de giz a blusa!...

 

Faz-se um grito e um silêncio

entre uma paz verdadeira.

Olha em súplica para os meninos,

pede perdão… Haja maneira!...

 

Macedo Teixeira, Julho de 2016.

 

 

Pendular Geometry

 

It’s time to go to school;

we’re in a hurry to arrive.

The bell rings swiftly.

Ring! Ring! “Let’s go in!”

 

He stares at in silence

the gestures of each one.

He knocks with the hands on the writing desk.

“Boys, no one is missing!!!”

 

Still spinning with emotion,

he goes to the blackboard speaking:

“Triangle, rectangle, hypotenuse!

Here’s the chalk, let’s begin?!”

 

“John, come quickly to the blackboard!

Figure an equilateral triangle,

then a rectangle triangle,

so that we reach to the four!”

 

“And you there, boy!...

What are you waiting for to begin?

Lift your head to the front;

It’s already time to wake up!”

 

Peter, without embarrassment, is going up in the lockage;

he goes up to the highest of the blackboard,

holding the ruler and the square

to draw a hypotenuse.

 

“What a shame, Johnny boy,

that not even this you know how to do!

The year is ending,

and you, boy, without learning!...”

 

Meanwhile in a confused afternoon,

he hits hardly the duster;

spreads white rays of dust

and stains the smock with chalk!...

 

A shout is made and a silence

among a true peace.

He looks in request to the children,

he apologizes… Behave yourselves!...

 

Macedo Teixeira, July 2016.

 

 

Crescendo Constroem-se os Sonhos (IX) / By Growing We Build the Dreams (IX)

06-04-2017 13:03

Crescendo Constroem-se os Sonhos (IX)

Macedo Teixeira

    Para quem crê, esta realidade assume-se como possível que assim seja! Para mim, muito do que acontece está para além dos nossos limites de compreensão, é neste sentido que compreendo este novo mundo em que somos colocados na Segunda Idade, um mundo com um plano cujas partes completam infinitamente a parte mais misteriosa da vida humana, a parte onde toca o absolutamente divino.

   Será então necessário que cada um de nós preste agora atenção a todas as situações, a todos os elementos que as compõem e a todas as necessidades que as caracterizam. Entender bem na proporção da temporalidade necessária à execução de qualquer trabalho, ter convicção e acreditar regeneração da vida. Compreender que é necessário fazer, não apenas porque é nosso dever, mas porque o sentido do dever torna-se num sentido voluntário e bom. Esta abertura que acabei de referir dá acesso à profundidade do nosso ser e à sua grande elevação. É o Mundo como Idealidade que começa a interessar mais do que o mundo como ideal que nos limita à materialidade e temporalidade; e um sonho muito mais arrebatador do que todos os sonhos que vivemos na Primeira Idade começa a construir-se e a tornar-se real com as realizações sociais, êxito e sucesso que estas nos trazem. Estas realizações são fundamentais e tornam-se nos elementos-base da Segunda Idade, pois o Homem necessita de êxitos e aprovação social, por isso a vontade inclinadora para a ordem da Idealidade conduz-nos a sentimentos mais apaixonantes e mais tranquilos para o gosto de viver. Assim, saibamos alcançar estas realizações, percepcionar a idealidade e o reconhecimento dos limites da sabedoria humana não serão aspectos limitadores, serão graus de consciência responsável de que somos parte e não somos tudo.

   Neste Mundo de Idealidade, os objectivos que percorremos tenderão para a realização transcendental, uma realização mais elevada que a realização ideal, já que será uma realização onde somos singularidades disponíveis e voluntárias que não servem só a tradição porque querem realizar a História.

   A existência concreta facilita os casos da realização concreta e dos sucessos reais, mas haverá sentimento melhor do que aquele que emana de um voluntarismo natural encontrado na transcendência da vida? A idealidade do ser está para além do que é ideal, pois este não nos limita, causa-nos fascínio e faz-nos sonhar com o infinito de Deus. A idealidade é o objectivo que surgirá como desejo mais secreto e pensamento mais puro para pensar e viver melhor. O transcendente e a transcendência surgem numa comunhão de semelhanças que o Homem precisa de alcançar. A Segunda Idade abre as portas a um caminho cuja forma tem as marcas do atemporal e do sonho, e não já de modo insistente, como na Primeira Idade, do tempo referencial e do preferível mais conforme a nossa vontade e desejo do que conforme a necessidade e o necessário. E se nesta idade a indefinição não acaba nem se completa, pois surgirá ainda como razão temporal sucessiva de momentos carregados de circunstância e finitude, ela prepara de modo muito preciso e delimitado o intemporal que a Terceira Idade anuncia como idealidade. É no viver da Segunda Idade que somos chamados a uma responsabilidade social que implicará disponibilidade e afirmação. Implicará partilha de vontades e desejos limitados à comunidade e ao grupo. Será forçoso que cada um entenda que lhe compete abrir o seu próprio destino e inclinar-se para as experiências activas com vista ao seu encontro e descoberta, pois não se conhece com precisão os seus limites, mas os sinais indicadores tornam-se cada vez mais evidentes à medida que a ele nos tornamos mais tangentes.

   Ao dizer “próprio destino”, estou a referir-me a uma certa singularidade de relação que existirá na ordem do ser que somos e da infinitude de que participamos. E os sinais anunciam a tocabilidade da Ordem que completa a relação humana de cada um como o ser-limite que somos no ilimitado de que fazemos parte como possibilidade.

   É por esta razão que a idealidade é o estado do ser humano mais elevado, ainda que a sua abertura projecte a vida humana para um involuntarismo muito complexo e difícil. Para um involuntarismo que será um ocorrer de situações com um sujeito infinitivo e que causará no homem um sentimento muito grande de impessoalidade. Mas é esta idealidade que dá ao Homem uma grande vontade de se tornar naquilo que ele é e de se reconhecer nas fronteiras do ser em qualquer momento em que tenha que tocar os limites do pensamento e da vida possíveis. O ideal é um passo da Primeira e da Segunda Idade e a idealidade é o caminho que começaremos a percorrer na nossa mais elevada afirmação. Na afirmação que já não se prenderá ao que é real de modo finito nem ao ideal de modo singular e único. Será uma afirmação que se vai acrescentando a si mesma por força da construção do caminho que agora já não será feito só com o que é humano e visível.

 

FIM

 

 

By Growing We Build the Dreams (IX)

Macedo Teixeira

For those who believe, this reality is assumed as possible that is so! For me, much of what happens is beyond our limits of comprehension, it is within this sense that I comprehend this new world in which we are placed in the Second Age, a world with a plan whose parts complete infinitely the most mysterious part of human life, the part where it touches the absolutely divine.

It will then be necessary that each one of us pays attention to every situation, to all the elements that compose them and to all the needs that characterize them. To understand well in the proportion of the necessary temporality to the execution of any job, to have conviction and believe in the regeneration of life. To understand what is necessary to do, not only because it is our duty, but because the sense of duty becomes a voluntary and a good sense. This openness I just referred to gives access to the deepness of our being and to its great elevation. It is the world as Ideality that begins to interest more than the world as an ideal that limits us to materiality and temporality; and a dream much more breathtaking than all the dreams we live in the First Age begins to be built and to become real with the social realizations, and with the success that these bring to us. These realizations are fundamental and become basic elements of the Second Age, since Man needs successes and social approval, therefore the inclining will to the order of Ideality lead us to more thrilling and more peaceful feelings to the zest for life. So, let us know how to achieve these realizations, to perceive ideality and the acknowledgement of the limits of human wisdom will not be limiting aspects, they will be degrees of responsible consciousness that we are and not all.

In this World of Ideality, the objectives we pursue will tend to the transcendental realization, a more elevated realization than the ideal realization, since it will be a realization where we are available and voluntary singularities that do not serve only tradition because they want to realize History.

The concrete existence facilitates the cases of concrete realization and of real successes, but is there a better feeling than that which emanates from a natural voluntarism found in the transcendence of life? The ideality of the being is beyond what is ideal, for this does not limit us, it causes us fascination and makes dream with the infinite of God. Ideality is the objective that will emerge as a more secret wish and a purer thought to think and live better. The transcendent and transcendence emerge in a communion of similarities that Man needs to achieve. The Second Age opens the doors to a new path whose form has the marks of the atemporal and of the dream, and no longer in an insistent way, as in the First Age, of the referential time and of the preferable more in accordance with our will and wish than in accordance with necessity and the necessary. And if in this age the imprecision does not end nor complete itself, since it will emerge still as a temporal reason successive of moments loaded with circumstance and finitude, it prepares in a very precise and delimited way the timelessness that the Third Age ushers in as ideality. It is in the living of the Second Age that we are called to a social responsibility that will imply availability and affirmation. It will imply a sharing of wills and wishes limited to the community and to the group. It will be imperative that each one understands that it is incumbent on oneself to open their own destiny and to incline oneself to the active experiences with a view to its conjunction and discovery, since one does not know with precision its limits, but the indicating signs become even more evident as we become more tangent to it.

By saying “own destiny”, I am referring to a certain singularity of relation that will exist within the order of the being we are and of the infinitude in which we participate. And the signs herald the touchability of the Order that fulfils the human relation of each one as the limit-being we are in the unlimited of which we are part as a possibility.

It is for this reason that ideality is the state of the most elevated human being, although its openness projects human life to a very complex and difficult involuntarism. To an involuntarism that will be an occurrence of situations with an infinitive subject and that will cause in man a very great feeling of impersonality. But it is this ideality that gives Man a great will to become that which he is and to recognize himself on the frontiers of the being at each moment when he has to touch the limits of the possible thought and life. The ideal is a step of the First and of the Second Age, and ideality is the path we will begin to cover in our most elevated affirmation. In the affirmation that will no longer become attached to what is real in a finite way nor to the ideal in a singular and unique way. It will be an affirmation that will add to itself by reason of the construction of the path that now will no longer be made only with what is human and visible.

 

THE END

 

 

Crescendo Constroem-se os Sonhos (VIII) / By Growing We Build the Dreams (VIII)

14-03-2017 19:15

Crescendo Constroem-se os Sonhos (VIII)

Macedo Teixeira

    A nossa afirmação tem a ver com a nossa espontaneidade e com as nossas convicções; elas são os suportes dinâmicos da nossa conduta. Há uma espécie de figurino que cada pessoa vai modelando e dando cor; ganha-se um certo estilo e forma-se a personalidade. A afirmação pura torna-se numa afirmação positiva, torna-se na força da espontaneidade e no desejo real do nosso querer. Torna-se, afinal, num princípio do comportamento moral, pois o homem deve guiar-se pelo bem e tudo o que é puro é bom. Quando digo nos meus pensamentos anteriores que é na fase da maioridade, sobretudo até cerca dos quarenta anos de idade, que o homem mais sente a falta dos conteúdos ricos e diversificados das suas experiências anteriores é, exactamente, pela razão que acabei de referir. A nossa afirmação só pode manter-se com todo o vigor se a matéria da nossa espontaneidade e a força das nossas convicções não tiverem sido muito enfraquecidas, se os estados emocionais resultarem num equilíbrio de compreensão e não de sublimação forçada. É difícil para qualquer pessoa, nesta altura, ter de regular a sua espontaneidade por medidas de situação social particulares e poucos sentirão vontade de se afiliar a experiências que impeçam o curso da afirmação. Nesta fase da nossa vida, os nossos estados de consciência são bastante mutáveis e o desânimo acontece com frequência. Por outro lado, as cedências para a compreensão fazem-se pelo jogo do poder de dominar, mais do que pelo poder do amor que é puro e toca de um modo muito especial. Agora, torna-se mais necessário descobrir onde sopra o que é universal e num estado emocional dominador é difícil de se captar esse bem que é o amor. Assim, pela estabilização psíquica e o desejo mais cativo da nossa caminhada, a ordem de ambas as partes vai-se equilibrando à medida que a nossa afirmação vai sendo mais segura. Do centro da nossa vontade vão emergindo solicitações que vão estando cada vez mais conformes com a nossa realização e com o sentimento de estarmos a proceder conforme o que é universal e bom. Agora já não são tanto os outros que nos servem de modelo-guia, já não nos lembramos tanto de emoções que tivemos outrora na força de um desejo repetido. Era bom se fôssemos isto ou aquilo, se vivêssemos deste ou daquele modo; se experimentássemos a aventura e nos glorificássemos com algo de muito notável. Chamar a atenção faz parte de um certo tempo e serve só para construir um mundo de que somos mais objectos do que sujeitos.

   Na Segunda Idade, a nossa afirmação torna-se diferente nos fundamentos e a base principal começa pelo erguer dos princípios que toquem o bem e o acordo com a consciência. Desenvolvemos os nossos ideais na conjugação de um serviço que terá em conta os objectivos da realização pessoal e, acima de tudo, do acompanhamento profissional, moral e familiar de todas as partes que formam a nossa comunhão. Há uma tendência natural para avaliarmos os nossos actos mais à luz da nossa consciência e de tudo fazermos para sermos conformes com a elevação moral. Todas as nossas atitudes terão em vista um fim discreto e educado; já não participamos facilmente em aventuras para dar nas vistas ou mostrar capacidades que já não temos. É o juízo que mais nos interessa e a vontade que mais desejamos é a que seja coincidente. E tudo isto sempre num esforço de situarmos melhor o nosso ser, de apurarmos o nosso sentido da vida e de sermos uma parte do valor social.

   A abstracção da vida faz-se com todos os conteúdos que a estruturam, com a riqueza de condições humanas, mas também com os conteúdos das experiências cujas riquezas são de origem natural e se formam na natureza. A conjugação destes elementos e a transformação destas potencialidades dão origem a estados emocionais capazes de superar as situações existenciais mais delicadas, de permitir restaurar a nossa vida e de ganhar forças para outras novas questões. Como sujeito dos nossos actos, somos responsáveis pelas consequências que deles resultam e o seu valor de qualidade positiva ou negativa depende da nossa capacidade de ser intérpretes de todas as situações criadas. Estas são, entretanto, dominadoras e determinantes, logo, se não existirem nos conteúdos psíquicos do homem riquezas de vivências que lhe permitam a melhor solução em cada situação, a força dominadora das experiências subjuga o homem e obriga-o a limites comportamentais de valor mais negativo que positivo. É nesta idade que cada homem deve ajuizar da importância que tem o sentido e a forma que vai dando à sua vida. De uma forma mais alargada ou numa individualização mais extrema, a responsabilidade que lhe vai cabendo já não estará centrada no seu eu individual. A sua responsabilidade atinge domínios sociais de arquitectura da Ordem da vida, que terão consequências em todas as ordens nomeadamente na ordem transcendente. Trata-se, agora, de fazer com que as suas experiências lhe tragam vontade de realização solidária, mas também de afirmação da comunidade a que pertence. Antes era a construção do seu mundo físico que estava em questão, agora será a construção de um mundo psíquico e social que exige uma responsabilidade mais abrangente e complexa. Na Primeira Idade vivemos voltados para o nosso eu e para a realização do que é estrutural na individualidade que idealizamos e que fazemos questão de em todas as respostas mostrarmos que tem que ser assim e que somos capazes disso. A juventude da nossa vida está recheada de perspectivas ideais e de desejos que são naturalmente comuns. Se assim não fosse, do que seríamos capazes? Da nossa animalidade biológica? De um involuntarismo primário para a concretização da vida?

   Certamente, pouco mais do que estes actos e a passividade retardadora seriam a resposta ao imediato incaracterístico.

   Na idade seguinte, começam a fazer-se sínteses, em que o sujeito das respostas que damos e das obras que produzimos já não se ocupa apenas de si mesmo; e o ser social, que há muito se manifesta em nós, torna-se agora numa realidade concreta. Cada um começa a completar-se com os outros, com o mundo onde vive, com as realidades naturais que o ligam a uma elementaridade que excede a dimensão cósmica.

   É a partir desta fase que o homem estabelece uma relação com a sua consciência, que excederá os limites da dimensão física e natural — os limites concretos do ser humano. A partir desta fase abre-se na nossa consciência um outro espaço com outra substância mais apelativa na sua transcendência e pureza. A sua natureza e origem apontam para uma inclinação natural em cuja vontade o homem é completamente livre. A sua inclinação é por acção pura da liberdade da consciência, que se tornará nesta idade bastante profunda e meditativa. Desta relação como sujeito surge um sentimento de responsabilidade perante um novo mundo; um mundo psíquico e social mais profundo e mais apelativo à nossa responsabilidade. Nas várias acções humanas começam a estar presentes com maior insistência o viver e o sonhar. Cada um de nós, que antes articulava esta relação de um modo espontâneo, fá-lo agora, de um modo sentido e pensado e ao mesmo tempo com a consciência limitada a domínios de transcendência. Cada um de nós passa a compreender que nas suas sínteses vivenciais existe algo que está para além de si mesmo e até, quem sabe, para além do que nos é possível pensar!

 

 

By Growing We Build the Dreams (VIII)

Macedo Teixeira

Our affirmation has to do with our spontaneity and with our convictions; they are the dynamic supports of our conduct. There is a kind of model that each person is modelling and giving color; we gain a certain style and personality is formed. The pure affirmation becomes a positive affirmation, it becomes the strength of spontaneity and the real wish of our will. It becomes, after all, a principle of moral behavior, since man ought to guide himself by good and by all that is pure and good. When I say in my anterior thoughts that it is within the phase of majority, especially until about forty years old, that man misses more the rich and diverse contents of his previous experiences, it is precisely by the reason I just mentioned. Our affirmation can only be kept with all its vigor if the substance of our spontaneity and the strength of our convictions had not been very weakened, if the emotional states result in an equilibrium of comprehension and not from forced sublimation. It is difficult for anyone, by this time, to have to regulate their spontaneity by measures of particular social situations, and few will feel the will to affiliate themselves to experiences that hinder the course of affirmation. Within this phase of our life, our states of consciousness are very fickle and despondency happens frequently. On the other hand, concessions to the comprehension are made by the game of the power to dominate, more than the power of love that is pure and touches in a very special way. Now, it becomes more necessary to find out where blows what is universal, and in an emotional dominating state it is difficult to capture that good which is love. This way, by psychic stabilization and by the most captive wish of our path, the order of both parts will balance itself as our affirmation is becoming more secure. From the center of our will are emerging solicitations that will be even more conforming to our realization and to the feeling of being proceeding in accordance with what is universal and good. Now it is no more the others that serve to us as guide-model, we no longer remember so much of emotions we had once in the strength of a repeated wish. It would be good if we lived by this or that way; if we experienced adventure and glorified ourselves with something notable. To draw attention is part of a certain time and only serves to build a world of which we are more objects than subjects.

In the Second Age, our affirmation becomes different on the fundaments and the main base begins by the raising of the principles that touch good and the agreement with conscience. We develop our ideals in the conjugation of a service that will take into account the goals of personal realization and, above all, of professional, moral and familiar support of all parts that form our communion. There is a natural tendency to evaluate our acts more in the light of our conscience and of all we do to be in conformity with our moral elevation. All of our attitudes will have in view a discrete and educated aim; we no longer participate easily in adventures to strike the eye or to show capabilities we no longer have. It is the judgement that interests us more, and the will we wish the most is that it is coincident. And all of this in an effort to better situate our being, to ascertain our meaning of life and to be a part of the social value.

The abstraction of life is made with all contents that structure it, with the richness of human conditions, but also with the contents of the experiences which richnesses are from natural origin and are formed in nature. A conjugation of these elements and the transformation of these potentialities give rise to emotional states capable of surpassing the most delicate existential situations, of allowing to restore our life and of gaining strengths to other new questions. As a subject of our acts, we are responsible by the consequences that result from them, and its value of positive or negative quality depends upon our ability to be interpreters of all created situations. These are, meanwhile, dominating and determinant; therefore, if do not exist within the psychic contents of man richnesses of experiences that permit him the best solution in each situation, the dominating force of the experiences subdues man and forces him to behavioral limits of more negative than positive value. It is within this age that each man should judge the importance that has the meaning and the form he is giving to his life. In a more widened form or in an more extreme individualization, the responsibility that is up to him will no longer be centered on his individual self. His responsibility reaches social domains of the Order of life, which will have consequences in all orders, namely in the transcendent order. The question is, now, to make his experiences bring him will to solidary realization, but also of affirmation of the community which he belongs to. Before it was the construction of his physical world that was in question, now it will be the construction of a psychic and social world that demands a more comprehensive and complex responsibility. In the First Age, we live turned to our self and to the realization of what it is structural in the individuality we idealize and that we insist in all the answers on showing that it has to be that way and that we are capable of that. The youth of our life is filled of ideal perspectives and of wishes that are naturally common. If it was not so, what would we be capable of? Of our biological animality? Of a primary involuntarism for the fulfillment of life?

Certainly, a few more than these acts, and the delaying passivity would be the answer to the uncharacteristic immediate.

In the following age, syntheses begin to be made, in which the subject of the answers we give and of the works we produce no longer occupies only of himself; and the social being, which from very early manifests itself in us, becomes now a concrete reality. Each one begins to complete themselves with the others, with the world where they live, with the natural realities that connects them to an elementarity that exceeds the cosmic dimension.

It is from this phase on that man establishes a relation with his conscience, which will exceed the limits of the physic and natural dimension — the concrete limits of the human being. From this phase on, it opens in our conscience another space with other more appealing substance in its transcendence and purity. Its nature and origin point to a natural inclination in which will man is completely free. His inclination is for pure action of the freedom of conscience, which will become at this age very profound and meditative. From this relation as a subject, it emerges a feeling of responsibility in the face of a new world; a more profound and more appealing psychic and social world to our responsibility. In the several human actions begin to be present with more insistence the living and the dreaming. Each one of us, who structured before this relation in a spontaneous way, does it now, in a felt and thought way and at the same time with the conscience limited to domains of transcendence. Each one of us begins to understand that in their experiential syntheses there is something that it is beyond oneself and even, who knows, beyond what it is possible for us to think!

 

 

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